ÁFRICA E A GUERRA FRIA TECNOLÓGICA: COMO A INDÚSTRIA DA IA ESTÁ A MUDAR A GEOPOLÍTICA NO CONTINENTE26/11/2025
A disputa global por minerais essenciais à inteligência artificial, às baterias de nova geração e à electrónica avançada está a reconfigurar a geopolítica africana. De Cabinda ao Corno de África, passando pelo Sahel e pelo Índico, forma-se uma linha de tensão onde se sobrepõem interesses chineses, norte-americanos, europeus e russos. O continente volta a assumir o papel de palco estratégico, desta vez, não pela ideologia, mas pela necessidade de controlar os recursos que sustentam a economia digital mundial. Sabe mais no Blog dos Portugueses em Viagem. Os elementos críticos incluem cobalto, cobre, lítio, níquel, grafite e terras raras — pilares indispensáveis a semicondutores, circuitos integrados, telecomunicações, veículos eléctricos e redes de armazenamento energético. África concentra algumas das maiores reservas mundiais destes elementos, sobretudo na RDCongo, Zâmbia, Namíbia, Zimbabwe, Tanzânia, Moçambique e Madagáscar. Paralelamente, a China controla entre 70% e 90% da capacidade global de refinação e processamento destes minerais, uma vantagem industrial que preocupa Washington, Bruxelas e Tóquio. A competição sino-americana assume múltiplas formas. Projectos chineses de mineração, infra-estruturas e processamento expandiram-se de forma acelerada ao longo da última década, sobretudo através de empresas estatais com forte apoio financeiro de Pequim. Os EUA, por seu lado, intensificaram iniciativas diplomáticas e económicas para reduzir a dependência das cadeias de abastecimento chinesas. A Administração Biden financiou novos programas de diversificação de minerais críticos e estabeleceu parcerias com países africanos considerados estratégicos, como a Zâmbia e a RDCongo, para o desenvolvimento conjunto de cadeias de valor regionais. Mas o factor mais sensível é a coincidência geográfica entre zonas ricas em recursos críticos e Estados com instituições frágeis ou em colapso. Níger, Mali, Burkina Faso, Guiné e Gabão registaram golpes de Estado recentes. Madagáscar e Sudão enfrentam turbulência política recorrente. Em vários destes países, concessões mineiras mudaram de mãos imediatamente após alterações de poder, um padrão que levanta questões sobre a influência externa nos alinhamentos internos. Especialistas em segurança alertam para a possibilidade de que a crescente rivalidade sino-americana possa actuar como aceleração de tensões locais já existentes. Não há, até ao momento, prova directa de que grandes potências patrocinem golpes para obter controlo sobre ativos minerais, mas as circunstâncias criam incentivos fortes para que actores internos instrumentalizem rivalidades internacionais. As receitas potenciais do lítio no Zimbabwe, do cobalto na RDCongo ou do urânio no Níger aumentam substancialmente o valor económico do Estado, reforçando a lógica de captura institucional. No plano militar, alguns países começaram a destacar unidades especiais para proteger minas sensíveis, enquanto empresas privadas de segurança, russas, chinesas e ocidentais, disputam contratos de vigilância em regiões remotas. A presença crescente do grupo Wagner no Sahel, associada à expulsão de forças francesas e ao estreitar de laços com Moscovo, introduz um novo vector de competição que complica a equação. Vários analistas acreditam que esta tendência pode transformar zonas mineiras críticas em arenas de confronto indirecto. Apesar disso, a situação permanece mais volátil do que estrutural. A maioria dos governos africanos tenta equilibrar relações, negociando com múltiplos blocos para maximizar receitas e reduzir a dependência de um único parceiro. A China continua a apresentar-se como actor económico de longo prazo, focado em infra-estruturas e industrialização. Os EUA enfatizam a diversificação das cadeias de abastecimento e a transparência contratual, procurando contrariar a influência chinesa sem provocar confrontos abertos. A grande questão para os próximos anos é se a pressão sobre minerais estratégicos será suficiente para transformar rivalidades económicas em confrontos securitários. O risco existe: a procura global de minerais para IA está a crescer muito mais rápido do que a capacidade mundial de exploração e refinação. A possibilidade de distúrbios políticos, captura de minas por grupos armados, alinhamentos com potências externas e instabilidade regional coloca África novamente no centro de uma disputa global, agora guiada pela tecnologia. Para já, o continente africano encontra-se no ponto crítico onde se cruzam interesses internacionais de larga escala e fragilidades internas profundas. Se a próxima década confirmar a tendência actual, a luta por minerais críticos poderá tornar-se um dos factores mais determinantes da política africana e da segurança global, e o mundo poderá assistir ao surgimento de uma nova forma de competição estratégica, menos ideológica mas potencialmente tão disruptiva quanto a Guerra Fria original. A ESTABILIDADE POLÍTICA NOS PALOP ESTÁ EM RISCO?A estabilidade política dos PALOP enfrenta riscos diferenciados quando analisada à luz da fragilidade institucional e da crescente importância dos minerais estratégicos para a transição energética e para a indústria global da inteligência artificial. Os casos mais críticos são Guiné-Bissau e Moçambique. A Guiné-Bissau vive um colapso institucional persistente, marcado pela politização das forças armadas e pela entrada recente de interesses mineiros externos relacionados com a bauxite, o que aumenta a competição interna por controlo do Estado. Moçambique, por seu lado, combina megaprojectos de gás e minerais críticos com territórios afectados por pobreza estrutural, exclusão social e jihadismo, especialmente em Cabo Delgado, onde se observam sinais claros de uma guerra em torno dos recursos energéticos. Angola representa um risco estrutural distinto, projectado sobretudo a médio prazo. Embora mantenha um regime politicamente estável, a disputa pelas rendas associadas a minerais críticos — como lítio, cobre e cobalto — cruza-se com a questão sensível da sucessão presidencial e com pressões sociais num sistema fortemente centralizado. Esta combinação coloca o país num ponto de tensão latente: não enfrenta, hoje, uma ameaça imediata, mas a evolução do sector mineiro poderá intensificar dinâmicas internas de competição política. No extremo oposto, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde permanecem relativamente afastados deste tipo de riscos. São Tomé e Príncipe poderá enfrentar desafios se o petróleo offshore ganhar expressão real, mas por enquanto o impacto é limitado. Cabo Verde, sem recursos minerais estratégicos relevantes, mantém uma estabilidade política sólida e praticamente fora do tabuleiro geopolítico da corrida a minerais para IA. O quadro geral mostra que os PALOP não enfrentam uma ameaça uniforme: a competição global por recursos amplifica vulnerabilidades pré-existentes onde as instituições são frágeis e pressiona regimes centralizados, sem alterar substancialmente a situação dos países mais estáveis. |
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