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A aprovação de um novo Projeto de Lei no Estado do Rio de Janeiro constitui um avanço notável na legalização dos casamentos celebrados segundo os ritos da Umbanda e do Candomblé. A medida não só garante o efeito civil dessas uniões como reafirma a liberdade religiosa, a igualdade e a dignidade humana. As religiões africanas no Brasil são resultado da diáspora forçada, da adaptação cultural e da resistência. A repressão histórica deixou marcas profundas e o preconceito ainda persiste. Sabe mais no Blog dos Portugueses em Viagem. A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) aprovou, no dia 6 de novembro de 2025, o Projeto de Lei 6.076/25, por iniciativa do deputado Átila Nunes (PSD), que reconhece a validade civil dos casamentos celebrados em cerimónias pelos ritos das religiões de matriz africana, concretamente Umbanda e Candomblé. A nova norma equipara tais uniões aos matrimónios celebrados em igrejas já reconhecidas oficialmente, como a Católica ou várias denominações evangélicas, desde que preenchidos requisitos específicos. Com a aprovação, as cerimónias realizadas em casas ou terreiros de Umbanda e Candomblé passam a ter o potencial de produzir efeito civil — ou seja: podem ser convertidas em casamento civil perante o Estado, desde que os noivos e a cerimónia sigam os critérios definidos. Para que a celebração seja reconhecida civilmente, é necessário:
Esta medida representa um marco importante na promoção da liberdade religiosa, da dignidade da pessoa humana, da igualdade e da valorização da diversidade cultural, princípios expressos na Constituição brasileira. É também uma reparação histórica: as religiões de matriz africana sofreram marginalização, repressão e invisibilização ao longo da história brasileira. O texto do projeto reconhece essa herança de discriminação e visa corrigir a desigualdade entre credos. Apesar da aprovação em discussão única, o projeto ainda recebeu emendas e aguarda votação em redação final antes da sanção ou veto do governador. Depois da sanção, o estado do Rio de Janeiro tornará-se oficialmente o primeiro da federação brasileira a garantir, por norma própria, efeitos civis a cerimónias matrimoniais realizadas nos ritos da Umbanda e do Candomblé. A nova norma autoriza também que os Poderes Executivo e Judiciário promovam:
Do ponto de vista dos direitos humanos, esta inovação legislativa cumpre os princípios de igualdade e não discriminação previstos em instrumentos internacionais e constitucionais. A equiparação das uniões matrimoniais de religiões afro-brasileiras às de credos historicamente privilegiados combate o racismo estrutural e a intolerância religiosa. É importante, no entanto, monitorizar a implementação prática, ou seja, verificar se os cartórios e autoridades religiosas cumprem os procedimentos e se não ocorrem recusas ou atrasos por discriminação de facto. Tal implementação será crucial para que o direito se converta em prática efectiva. A aprovação do Projeto de Lei 6.076/25 pela ALERJ constitui um avanço notável na legalização dos casamentos celebrados segundo os ritos da Umbanda e do Candomblé no estado do Rio de Janeiro. A medida não só garante a possibilidade de efeito civil dessas uniões como reafirma a liberdade religiosa, a igualdade e a dignidade humana. Resta agora acompanhar a tramitação até sanção e verificar que todos os cartórios e autoridades religiosas implementem os novos procedimentos de forma plena. EXPEDIÇÕES NO BRASILAS ORIGENS DAS RELIGIÕES AFRICANAS NO BRASILDesde os primeiros séculos da colonização, o Brasil tornou-se destino de milhões de africanos escravizados que trouxeram consigo sistemas de crenças, cosmologias, práticas rituais e entidades espirituais de diversas regiões do continente. Estas religiões africanas no Brasil formaram-se sobretudo entre os séculos XVI e XIX, quando povos de regiões como Nigéria, Benim, Angola, Congo e outras foram forçados a migrar para as plantações e engenhos coloniais. Esses sistemas de crença não permaneceram inertes: adaptaram-se, fundiram-se com elementos indígenas e católicos — surgindo, por exemplo, formas sincréticas que originaram as religiões de matriz africana hoje conhecidas no Brasil. Um antecedentes importante reside no facto de que muitos africanos escravizados continuaram a venerar os seus antepassados, orixás, voduns, espíritos da natureza, e que as suas práticas foram mantidas em terreiros, quilombos e espaços de resistência cultural. Estas práticas constituíram mecanismos de preservação identitária e solidariedade comunitária frente à brutalidade da escravidão. A repressão começou cedo no Brasil colonial e continuou até ao tempo contemporâneo. Sob o regime escravista, o catolicismo era imposto como norma, e práticas africanas eram vistas como “superstições”, “feitiçaria” ou mesmo “influências satânicas”. Durante o Império e a República, existiram leis e práticas policiais que visavam suprimir ou controlar os cultos de origem africana — por exemplo, inspecções em terreiros, prisões de praticantes e estigmatização social. No século XX e XXI, apesar dos avanços legais em liberdade religiosa no Brasil, as religiões de matriz africana continuam a enfrentar violência física, difamação, atos de intolerância religiosa e discriminação estrutural. As percepções negativas acompanham-nos: o preconceito associa essas religiões a “cultos demoníacos”, “macumba”, ou “práticas primitivas”, o que reforça estigmas raciais e culturais. Actualmente verifica-se uma reivindicação crescente de reconhecimento, de direitos iguais, de preservação cultural e de combate ao chamado “racismo religioso”, ou seja, uma interseção entre racismo e intolerância religiosa. |
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