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Nas zonas urbanas e rurais de Soure, no arquipélago no Pará, Brasil, o patrulhamento montado não é feito em cavalos, mas sim em búfalos-d’água, perfeitamente adaptados aos campos alagados e à lama típica da região. Esta modalidade é hoje uma marca identitária de Marajó e um caso quase único no mundo. Sabe mais no Blog dos Portugueses em Viagem. Para perceber por que razão os búfalos se tornaram aliados estratégicos da polícia local, é preciso olhar para a própria Ilha de Marajó. Trata-se da maior ilha flúvio-marítima do mundo, com cerca de 40 000 km², situada na foz do Amazonas e sujeita a inundações sazonais que transformam estradas de terra em autênticos pântanos. A região alberga o maior rebanho bubalino do Brasil, com centenas de milhares de animais, números que excedem a população humana da ilha. Estes búfalos, introduzidos na Amazónia brasileira no final do século XIX a partir de populações asiáticas, adaptaram-se de forma extraordinária às várzeas alagadas e aos solos lamacentos. Foi este contexto ecológico que levou, no início da década de 1990, à criação do patrulhamento montado em búfalos pelo 8.º BPM em Soure. De acordo com comunicados oficiais da própria Polícia Militar do Pará e da Agência Pará, o uso destes animais foi pensado como complemento a viaturas, motas e barcos, precisamente para chegar a áreas onde nenhum outro meio consegue operar: caminhos parcialmente inundados, campos de pastagem transformados em lamaçais e zonas sem profundidade suficiente para embarcações. Nestes cenários, o búfalo, que pode pesar perto de 600 kg, conserva tração e estabilidade, transportando os militares com relativa segurança. Na prática, os búfalos são usados em dois grandes tipos de situação. Em contexto urbano, sobretudo em Soure, funcionam como força de proximidade, patrulhando ruas, festas locais e pontos turísticos, reforçando a visibilidade da polícia e aproximando-a da população e dos visitantes. Em contexto rural, são essenciais em operações contra o roubo de gado, buscas por foragidos e rondas em áreas de difícil acesso, onde o tempo de resposta seria muito maior se a deslocação dependesse apenas de jipes ou lanchas. Relatos de operações em fazendas da região apontam precisamente para a eficácia dos animais em perseguições em terrenos alagados, onde veículos ficam atolados. Com o tempo, esta solução logística ganhou também uma dimensão simbólica e turística, mas o uso de búfalos está integrado numa estratégia mais ampla de policiamento diversificado, que combina meios motorizados, fluviais e montados para cobrir um território complexo, marcado por rios, mangais e savanas inundáveis. Mais de três décadas de experiência mostram que, em Marajó, o búfalo é, ao mesmo tempo, símbolo cultural, recurso económico e ferramenta operacional da polícia. |
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