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"Já visitei mais de cinquenta países. Passo grande parte do ano entre reuniões, processos e prazos. Viajar sempre foi a minha forma de sair dessa rotina. Ao longo dos anos já estive nos Himalaias, Namíbia, Patagónia e explorei regiões remotas da Ásia Central. Ainda assim, havia uma experiência que continuava por concretizar: fazer um trekking no Deserto do Saara. Foi precisamente isso que fiz numa viagem dos Portugueses em Viagem a Marrocos." "Quando se fala em Merzouga, toda a gente imagina imediatamente camelos, dunas e pores do sol. Tudo isso existe. Mas a realidade é mais interessante do que essa imagem que encontramos nas redes sociais. O Deserto impressiona sobretudo pela sua dimensão, pelo esforço físico que exige e pela forma como altera a nossa perceção do tempo e da distância. Chegámos a Merzouga ao final da tarde. Depois de vários dias a atravessar montanhas, vales e aldeias do sul de Marrocos, as primeiras dunas de Erg Chebbi começaram a surgir no horizonte. À distância parecem relativamente pequenas. Quando nos aproximamos, percebemos rapidamente que essa impressão é enganadora e como são gigantes. Algumas das dunas ultrapassam os cento e cinquenta metros de altura. São verdadeiras montanhas de areia. O plano era simples: deixar os veículos, preparar o equipamento essencial para a noite e iniciar a caminhada até ao acampamento instalado no interior do deserto. Os primeiros minutos foram fáceis. O entusiasmo ajudava. A temperatura estava agradável e a paisagem era extraordinária. No entanto, bastou algum tempo para perceber que caminhar na areia é muito mais exigente do que parece. Cada passo afunda-se ligeiramente. A energia necessária para avançar aumenta. As subidas tornam-se particularmente cansativas. Não há trilhos definidos. Não há superfícies estáveis. O corpo trabalha constantemente para manter o equilíbrio. Ao fim de uma hora já ninguém subestimava o deserto. Foi precisamente aí que começou a surgir algo que considero uma das maiores qualidades das viagens de grupo bem organizadas: a camaradagem. Os participantes tinham idades e origens diferentes. Como acontece frequentemente nas viagens dos Portugueses em Viagem, muitos encontravam-se pela primeira vez. Mas o esforço físico tem uma característica curiosa. Aproxima rapidamente as pessoas. Quem estava mais confortável ajudava quem tinha mais dificuldades. As pausas aconteciam naturalmente. Partilhava-se algumas palavras de incentivo. Sem formalismos, sem necessidade de grandes discursos, o deserto cria uma dinâmica própria. À medida que avançávamos, as conversas tornavam-se menos frequentes. Não por falta de assunto. Simplesmente porque a paisagem começava a captar toda a atenção. O que mais me surpreendeu foi a escala. Nas fotografias, as dunas parecem bonitas. No terreno, a sensação é completamente diferente. A sucessão interminável de colinas de areia cria uma impressão de vastidão difícil de descrever. Não existem referências visuais familiares. Não há edifícios. Não há árvores. Nada, o vazio e nós próprios. Existe apenas areia até onde a vista alcança. Essa simplicidade acaba por ser um dos aspetos mais marcantes da experiência. Ao pôr do sol ainda estávamos a caminhar. À nossa frente estendia-se um mar de dunas iluminado pela luz do final da tarde. O sol descia lentamente e a cor da areia mudava a cada minuto. com tons dourados, laranja e vermelhos. Não foi um momento de euforia coletiva. Tivemos que parar e ficamos todos simplesmente em silêncio a contemplar aquilo. Hoje em dia é raro encontrar um local capaz de provocar essa reação num grupo inteiro. Após o pôr do sol prosseguimos a caminhada para o primeiro acampamento. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, os acampamentos atuais em Merzouga oferecem condições bastante confortáveis. Havia tendas espaçosas, camas adequadas, instalações sanitárias e uma área comum para refeições. Chehámos exaustos mas deu para tomar um duche de água morna O jantar revelou-se um dos momentos mais agradáveis da noite. Depois de várias horas de caminhada, uma refeição simples ganha outra importância. O ambiente era descontraído. As conversas giravam em torno das viagens já realizadas, dos projetos futuros e, naturalmente, da experiência que todos estávamos a viver naquele momento. Mas o verdadeiro protagonista da noite não foi o jantar. Foi o céu. Quem nunca esteve num deserto longe de grandes centros urbanos dificilmente imagina a quantidade de estrelas visíveis. A ausência de poluição luminosa transforma completamente a observação do céu noturno. À medida que a escuridão aumentava, surgiam cada vez mais estrelas. Primeiro algumas dezenas. Depois centenas. Finalmente milhares. A Via Láctea tornou-se perfeitamente visível. Muitas pessoas afastaram-se do acampamento para observar o céu em silêncio. Foi exatamente isso que fiz. Subi sozinho a uma duna próxima e sentei-me na areia. Não tive nenhuma revelação existencial. Apenas Tranquilidade absoluta. Mais tarde regressámos ao acampamento, onde alguns músicos locais tocaram ritmos tradicionais da cultura amazigh. Houve música, conversa e chá de menta. No Saara, não existe ruído. O Silêncio é absoluto. Quando cheguei à tenda dormi profundamente e acordei antes do nascer do sol. A temperatura tinha descido bastante durante a noite. Outra das ideias erradas sobre o deserto é pensar que faz sempre calor. As noites podem ser surpreendentemente frias, sobretudo durante os meses de inverno. Juntamente com outros participantes subi novamente a uma duna próxima para assistir ao nascer do sol. Valeu a pena. A luz regressou lentamente ao deserto. Primeiro surgiram tons azulados. Depois dourados. Aos poucos as dunas começaram a recuperar as suas formas e cores. A paisagem parecia completamente diferente da que tínhamos visto no dia anterior. É impressionante como o mesmo local pode mudar tanto em apenas algumas horas. Durante o pequeno-almoço, antes de retornarmos a caminhada reparei numa coisa interessante. Todos pareciam mais próximos. É uma das razões pelas quais continuo a participar em expedições deste género. As paisagens são importantes. Os monumentos também. Mas aquilo que realmente permanece são as experiências vividas e as pessoas com quem as partilhamos. Antes de deixarmos Merzouga, olhei para trás uma última vez. As dunas continuavam lá. Imóveis à distância. Indiferentes à passagem dos viajantes. Foi então que percebi aquilo que torna o Trekking no Deserto diferente de muitas outras Expedições. Não se trata apenas de ver o deserto. Trata-se de viver o deserto. Sentir a dificuldade da caminhada. Perceber a dimensão da paisagem. Adaptar-se ao ritmo lento imposto pela areia. Partilhar o esforço com outras pessoas. Dormir longe de tudo aquilo que normalmente ocupa os nossos dias. Para quem procura hotéis de luxo, entretenimento permanente ou conforto absoluto, talvez o Saara não seja a melhor escolha. Mas para quem gosta de viajar para compreender melhor os lugares que visita, poucas experiências em Marrocos conseguem competir com uma noite entre as dunas de Erg Chebbi. Meses depois da viagem, continuo a recordar vários momentos daqueles dias E se alguém me perguntar qual foi o momento mais marcante da viagem a Marrocos, não hesitarei na resposta. Foi passar as noites entre as dunas de Merzouga. Carlos Silva Gomes EXPEDIÇÃO TREKKING NO DESERTO" próxima expedição a marrocos |
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