|
A Guiné-Bissau vive um novo episódio de instabilidade política depois de um grupo de oficiais das Forças Armadas ter anunciado, esta quarta-feira 26 de Novembro 2025, que assumiu “controlo total” do país, dissolveu as instituições civis e suspendeu o processo eleitoral que decorria desde domingo. O golpe ocorreu três dias depois das eleições presidenciais e legislativas, marcadas por forte contestação interna e denúncias de irregularidades. O anúncio foi feito na Televisão Pública da Guiné-Bissau por um autoproclamado Comando Militar Superior para a Restauração da Ordem, que justificou a intervenção com a alegação de um alegado plano para “desestabilizar o país” envolvendo grupos armados e redes do narcotráfico. O Presidente Umaro Sissoco Embaló foi declarado “destituído”, embora o seu paradeiro permaneça incerto. Durante a manhã, testemunhas relataram tiros intensos nas imediações do palácio presidencial, Ministério do Interior e sede da comissão eleitoral em Bissau. Pouco depois, os militares anunciaram o fecho das fronteiras terrestres, marítimas e aéreas, assim como um toque de recolher de duração indeterminada. O país já estava mergulhado em tensão após as eleições de 23 de Novembro, nas quais o principal partido da oposição, o PAIGC, foi impedido de concorrer. Tanto o Presidente cessante como o candidato apoiado pela oposição reivindicaram vitória antes da divulgação de resultados oficiais. A instabilidade agravou-se com a presença reforçada de forças militares em vários bairros da capital. Organizações internacionais manifestaram preocupação imediata. A União Africana apelou à “restauração urgente da ordem constitucional”, enquanto a ONU alerta para o risco de um “retrocesso grave” no Estado de direito. A Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) está a seguir a situação “com máxima atenção”. A Guiné-Bissau tem um longo histórico de golpes e tentativas de golpe desde a independência em 1974. Só nos últimos três anos ocorreram duas sublevações militares, ambas atribuídas a disputas internas entre facções armadas e ao impacto do narcotráfico na vida política do país. Com instituições suspensas, fronteiras fechadas e ausência de calendário para uma eventual transição civil, o futuro imediato do país permanece incerto. A população de Bissau recolheu-se em casa e vários comerciantes encerraram portas, temendo confrontos entre facções rivais. golpes de estado frequentesA história política da Guiné-Bissau é marcada por ciclos repetidos de golpes de Estado e tentativas de sublevação militar desde a independência em 1974, criando um padrão de instabilidade que condiciona a vida nacional há décadas. O primeiro grande golpe ocorreu em 1980, quando João Bernardo “Nino” Vieira derrubou Luís Cabral. Seguiram-se outros episódios graves: a guerra civil de 1998–1999, que terminou com a queda de Nino Vieira; o golpe de 2003, que depôs Kumba Ialá; a intervenção militar após as eleições de 2009, que culminou no assassinato do presidente Vieira; o golpe de Abril de 2012, que suspendeu as presidenciais em curso; a tentativa de golpe de 1 de Fevereiro de 2022, com tiroteios no palácio do governo; e, mais recentemente, o golpe de 26 de Novembro de 2025, no qual os militares assumiram controlo total do país e suspenderam as instituições civis. Esta sequência de crises sucessivas teve impacto directo na fragilidade das instituições democráticas e na incapacidade do Estado em consolidar estabilidade duradoura. Cada golpe interrompeu reformas, paralisou políticas públicas e reforçou a percepção de que o poder político pode ser alterado pela força, e não pelo voto. A alternância recorrente entre governos civis e juntas militares criou um ambiente de desconfiança permanente, minando a autoridade das instituições, dificultando a governação e afastando quadros técnicos qualificados que poderiam contribuir para modernizar o país. As consequências económicas e sociais são profundas: a instabilidade afugentou investimento estrangeiro, reduziu a capacidade do Estado em planear a longo prazo e contribuiu para níveis elevados de pobreza, dependência externa e fragilidade institucional. A Guiné-Bissau permanece vulnerável ao tráfico de droga, à corrupção e à intervenção de actores armados porque nunca conseguiu consolidar um ciclo prolongado de estabilidade política. Cada interrupção violenta da ordem constitucional significou anos perdidos em desenvolvimento, afectando educação, saúde, infraestruturas e oportunidades económicas para a população. DIVERSIDADE ÉTNICA E RELIGIOSAA Guiné-Bissau é extremamente diversa: há mais de 20 grupos étnicos diferentes no país, com línguas, tradições culturais e históricas distintas. No plano religioso, existe uma coexistência de comunidades muçulmanas, cristãs e praticantes de religiões tradicionais africanas (animistas). Segundo dados recentes, cerca de 46% da população é muçulmana, cerca de 19-20% é cristã e cerca de 30% segue religiões tradicionais. Esta diversidade conferiria ao Estado guineense uma base social plural, e a própria Constituição define a Guiné-Bissau como um Estado laico, proibindo a identificação de partidos políticos com confissões religiosas. Em teoria, esta pluralidade deveria promover tolerância religiosa e representatividade étnica e, de facto, muitos estudos apontam para níveis relativos de convivência pacífica entre comunidades. A instabilidade política na Guiné-Bissau está “intrinsecamente ligada a dinâmicas transnacionais, regionais e à fragilidade institucional”, e não a tensões internas de matriz étnica ou religiosa. A persistência de golpes tem mais a ver com disputas pelo controlo do Estado (por exemplo, segurança, corrupção, tráfico) do que com identidades comunitárias. Mas a profunda diversidade étnica e religiosa torna o país vulnerável a tentativas de manipulação: A pluralidade facilita que actores (políticos, militares ou criminais) tentem explorar divisões locais para obter apoio, intimidar adversários ou confundir a opinião pública. Já existem queixas de uso de discurso étnico em campanhas eleitorais. Em períodos de crise, fanatismos, ressentimentos e desinformação podem crescer, o que, apesar de não ser detonante direto dos golpes, pode agravar conflitos comunitários e desestabilizar ainda mais o tecido social. o petróleo, bauxite, terras raras e outros interesses internacionais na guiné bissauA Guiné-Bissau reúne um conjunto raro de recursos naturais diversificados (agricultura, pesca, madeira, minerais, petróleo offshore, biodiversidade) que a tornam num território de elevado interesse económico e geoestratégico. Países como China, Rússia, Estados Unidos, Senegal e Angola, cada um com motivações diferentes,têm razões para disputar influência sobre Bissau: matérias-primas, controle costeiro e marítimo, esfera geopolítica no Atlântico Ocidental, e inserção no espaço lusófono ou africano. Na Guiné Bissau está comprovada a alta propensão para bauxite/alumínio (na região de Boé, com reservas estimadas em cerca de 110–113 milhões de toneladas, com teor de alumina 44% e sílica 4%) e algum potencial de areias minerais pesadas (titânio, zircão), que são relevantes para infra-estruturas, ligas metálicas e alguns componentes industriais usados indirectamente na cadeia da Industria da Inteligência Artificial. Os resíduos da refinação de bauxite (lama vermelha) podem, em teoria, ser fonte de gálio, vanádio e terras raras como subprodutos de alto valor, algo já estudado noutras regiões. Isto significa que, se a Guiné-Bissau desenvolver uma indústria de bauxite em grande escala com tecnologia avançada de reaproveitamento de resíduos, poderá integrar-se nas cadeias de abastecimento de minerais críticos para electrónica e IA. Em Novembro de 2024, o governo da Guiné‑Bissau assinou com a China Aluminium Corporation um “acordo de parceria estratégica” para prospeção e exploração de minas na zona de Boé. CONTACTOS DE EMERGÊNCIA para portugueses NA GUINÉ BISSAU
|
MAIS ARTIGOS!Escolhe o tema:
Tudo
|