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No final do século XVII, numa Ásia atravessada por redes comerciais, missionárias e políticas, surge uma figura singular: Maria Guyomar de Pinha. Nascida em 1664 no Reino de Ayutthaya (actual Tailândia), esta mulher de origem luso-asiática tornou-se uma das personagens mais improváveis e influentes da história do Sudeste Asiático. A sua vida cruza três mundos, Portugal, Japão e Sião, e percorre uma trajectória marcada por ascensão, queda e reinvenção. Sabe mais no Blogue dos Portugueses emViagem A MULHER QUE CONQUISTOU A CORTE DE UM DOS HOMENS MAIS PODEROSOS DO SUDESTE ASIÁTICOMaria Guyomar não nasceu em Portugal, mas carregava-o no sangue. Era filha de Fanik Guyomar, um mestiço oriundo de Goa com ascendência portuguesa, bengali e japonesa, e de Ursula Yamada, uma cristã japonesa refugiada no Sião após as perseguições religiosas no Japão. Cresceu numa comunidade cosmopolita de Ayutthaya, então uma das cidades mais internacionais do mundo, onde conviviam comerciantes europeus, japoneses, persas e chineses. Educada na fé católica, Maria viria a casar em 1682 com Constantine Phaulkon, um aventureiro grego que ascendeu ao poder na corte do rei Narai. Phaulkon tornou-se uma das figuras mais influentes do reino, equivalente a primeiro-ministro, e Maria acompanhou-o nesse círculo restrito de poder. O casal vivia com grande riqueza, recebia diplomatas franceses e estava integrado no projecto de aproximação entre o Sião e a Europa, especialmente França. Durante este período, Maria foi elevada ao estatuto de condessa de França, um símbolo da aliança política e religiosa que ligava a corte siamesa às potências europeias. Teve dois filhos, Jorge e João Phaulkon, nomes que reflectem claramente a herança portuguesa mantida dentro da família. Mas esta ascensão terminou de forma abrupta. Em 1688, uma revolução interna no Sião derrubou o rei Narai e eliminou a influência estrangeira. Phaulkon foi executado por traição. Maria tentou fugir e procurou refúgio junto das tropas francesas em Banguecoque, mas acabou entregue ao novo poder liderado por Phetracha. Apesar das promessas de proteção, Maria foi condenada à escravidão perpétua nas cozinhas reais. Este momento marca a transformação mais radical da sua vida: de aristocrata europeizada a cozinheira forçada na corte siamesa. No entanto, foi precisamente neste contexto que construiu o seu legado. Com o tempo, Maria tornou-se chefe das cozinhas do palácio. A partir daí, introduziu técnicas e receitas de origem portuguesa, sobretudo doces à base de gema de ovo, um ingrediente pouco utilizado na culinária local até então. Entre os doces associados ao seu nome estão o foi thong (fios de ovos), thong yip e thong yot, ainda hoje centrais na gastronomia tailandesa. A sua influência foi profunda. Não se limitou a cozinhar para a corte; contribuiu para transformar a própria cultura alimentar do Sião. Os doces dourados que introduziu eram valorizados simbolicamente por evocarem ouro, um elemento auspicioso na tradição local. Com o tempo, essas receitas passaram da corte para o povo, consolidando-se como parte da identidade nacional. Após a morte de Phetracha em 1703, Maria deixou formalmente a condição de escrava, mas manteve-se ligada às cozinhas reais. Nos anos seguintes, envolveu-se em disputas legais com a Companhia Francesa das Índias Orientais para recuperar dívidas do seu marido, conseguindo em 1717 uma compensação financeira reconhecida pelo Estado francês. Os seus filhos integraram-se na estrutura do reino: Jorge tornou-se funcionário da corte e João teve responsabilidades técnicas e religiosas, incluindo a supervisão de comunidades cristãs em Ayutthaya. Isto demonstra que, apesar da queda inicial, a família manteve relevância dentro do sistema siames. Maria Guyomar de Pinha morreu em 1728, no mesmo território onde nasceu, fechando um ciclo de vida inteiramente passado no Sião. Nunca regressou à Europa. Nunca viveu em Portugal. Ainda assim, foi uma das principais transmissoras da cultura portuguesa na Ásia. Hoje, na Tailândia, é conhecida como “Thao Thong Kip Ma” e muitas vezes chamada de “rainha das sobremesas tailandesas”. A sua história permanece viva não apenas na historiografia, mas também na cultura popular, na gastronomia e na memória colectiva. Maria Guyomar de Pinha não foi uma viajante no sentido clássico. Foi algo mais raro: uma ponte humana entre civilizações. Uma mulher que atravessou impérios, sobreviveu a uma revolução, caiu em escravidão e, ainda assim, deixou uma marca permanente na cultura de um país inteiro. saber mais: como visitar ayutthayaAyutthaya faz parte do Itinerário de várias Expedições dos Portugueses em Viagem. A cidade visita-se com facilidade a partir de Banguecoque, situada a cerca de 80 km, sendo o comboio a opção mais eficiente e económica, com partidas frequentes da estação de Krung Thep Aphiwat e duração média de 1h30; em alternativa, é possível chegar de minivan ou táxi em cerca de uma hora, dependendo do trânsito. No local, a melhor forma de explorar o parque histórico — classificado como UNESCO — é de bicicleta ou tuk-tuk, permitindo circular entre templos como Wat Mahathat, Wat Phra Si Sanphet e Wat Chaiwatthanaram com autonomia e ritmo controlado. Recomenda-se iniciar cedo para evitar o calor intenso, reservar pelo menos um dia completo, e considerar pernoitar junto ao rio Chao Phraya para observar o conjunto monumental ao pôr-do-sol, quando a antiga capital do Sião revela a sua dimensão histórica com maior clareza. A IMPORTÂNCIA DO REINO DO SIÃO, ACTUAL TAILÂNDIA, PARA O IMPÉRIO PORTUGUÊS NO ORIENTEO Reino do Sião, com capital em Ayutthaya, ocupou uma posição estratégica determinante no equilíbrio de poder do Sudeste Asiático entre os séculos XVI e XVII. Para o império português, recém-estabelecido após a conquista de Malaca em 1511, o Sião representava um parceiro diplomático e comercial de elevado valor. A sua localização permitia acesso privilegiado às rotas terrestres e marítimas que ligavam a China, o Japão e o interior da Indochina. Ao contrário de outros reinos da região, o Sião manteve uma política externa pragmática, permitindo a presença de mercadores e missionários portugueses sem submissão formal, mas com cooperação efectiva. A relação entre Lisboa e Ayutthaya consolidou-se cedo. Em 1516, uma embaixada portuguesa foi recebida na corte siamesa, estabelecendo um acordo que autorizava comércio, residência e liberdade religiosa para os portugueses. Este entendimento abriu espaço à criação de uma comunidade luso-descendente influente, composta por comerciantes, soldados e intérpretes, muitos dos quais integrados no aparelho militar e administrativo do reino. O Sião beneficiava do acesso a armas de fogo e know-how militar europeu; Portugal, por sua vez, garantia uma posição estável numa região marcada pela competição com potências emergentes, incluindo holandeses e ingleses. Do ponto de vista geopolítico, o Sião funcionou como um eixo de estabilidade numa rede comercial altamente volátil. Enquanto outras regiões enfrentavam conflitos constantes, Ayutthaya manteve-se como um centro urbano próspero e relativamente seguro, essencial para a circulação de bens como arroz, peles, madeira e metais preciosos. Para o império português, cuja presença no Oriente dependia de pontos de apoio dispersos e frágeis, a relação com o Sião permitia diversificar rotas e reduzir riscos estratégicos. Esta ligação não foi baseada em dominação, mas numa diplomacia funcional, onde interesses convergentes produziram benefícios mútuos num dos períodos mais competitivos da história global. |
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