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Fiordes, Fontes Termais e Silêncio Absoluto. Ao longo de mais de vinte anos a viajar regularmente na Islândia, descobri muitas formas de viver este país extraordinário. Vi erupções vulcânicas, atravessei tempestades de neve, percorri estradas remotas dos Westfjords, observei baleias, caminhei sobre glaciares e passei centenas de horas em fontes termais espalhadas pela ilha. Mas existe uma experiência menos falada, raramente abordada nos guias turísticos e quase ausente das campanhas promocionais do país: a relação única que a Islândia permite estabelecer entre natureza, isolamento e uma forma muito particular de liberdade corporal.
"Importa esclarecer desde o início que a Islândia não é um destino naturista. Não existem praias naturistas oficiais, resorts dedicados ao nudismo ou uma cultura naturista organizada comparável à que encontramos em países como a França, Croácia ou Espanha. No entanto, existe algo que considero ainda mais interessante. A geografia, a baixa densidade populacional e o isolamento de vastas regiões da ilha criam condições únicas para que o contacto natural com o corpo e com a paisagem aconteça de forma espontânea, individual e autêntica. A primeira vez que tive consciência disso aconteceu há muitos anos nos Westfjords. Tinha terminado uma longa caminhada junto a um fiorde remoto onde não via outra pessoa há várias horas. À minha frente estendia-se uma pequena praia de areia dourada. Atrás de mim erguia-se uma montanha colossal. O oceano encontrava-se completamente imóvel. Não existiam casas, estradas, barcos ou qualquer sinal de presença humana. Apenas silêncio. A sensação de retirar a roupa e entrar naquele cenário não teve qualquer dimensão ideológica ou filosófica. Pareceu simplesmente a coisa mais natural do mundo. É precisamente isto que torna a Islândia diferente. Quando falamos de naturismo na Europa continental, frequentemente pensamos em praias delimitadas, associações, regulamentos ou espaços específicos. Na Islândia, a experiência é muito menos estruturada. Surge quase sempre da relação direta entre uma pessoa e uma paisagem extraordinária. O protagonista não é o corpo. É a natureza. Os Westfjords continuam a ser, na minha opinião, a região mais fascinante para este tipo de experiência. Trata-se de uma das áreas menos visitadas da Europa. Fiordes profundos recortam a costa durante centenas de quilómetros. Algumas estradas terminam simplesmente no nada. Existem vales inteiros onde podemos caminhar durante horas sem encontrar outra pessoa. A densidade populacional é tão reduzida que por vezes parece estarmos a explorar uma ilha desabitada. Em muitos destes locais, a sensação de liberdade é difícil de descrever. Não existe qualquer componente exibicionista. Não existe público. Não existe audiência. Existe apenas uma ligação muito direta entre o ser humano e o ambiente natural. Muitas das experiências mais memoráveis que vivi na Islândia aconteceram precisamente junto a fontes termais remotas. Ao contrário da famosa Lagoa Azul, que recebe milhares de visitantes todos os dias, a Islândia está repleta de pequenas nascentes geotérmicas espalhadas pelo interior da ilha. Algumas encontram-se junto a rios. Outras escondem-se em vales isolados. Muitas nem sequer aparecem nos mapas turísticos convencionais. Depois de uma caminhada longa, mergulhar numa nascente de água quente enquanto o vento frio percorre as montanhas é uma das experiências mais extraordinárias que a Islândia oferece. Em muitos destes locais não existe qualquer infraestrutura. Apenas uma pequena piscina natural alimentada pela energia geotérmica que emerge das profundezas da Terra. Nestas circunstâncias, o uso de fato de banho torna-se frequentemente irrelevante. Quando estamos completamente sozinhos numa montanha islandesa, rodeados por quilómetros de natureza intocada, a experiência assume uma dimensão quase primordial. Mas é importante compreender a diferença entre isolamento e espaço público. Embora a Islândia seja uma sociedade extremamente progressista, educada e aberta, isso não significa que o nudismo seja socialmente aceite em qualquer contexto. Pelo contrário. Os islandeses valorizam profundamente o respeito pelos outros e pela esfera pessoal. A nudez em locais públicos frequentados por terceiros, sem o seu consentimento, não é encarada como algo normal. Nas piscinas públicas, por exemplo, existe uma forte cultura de higiene que exige duches completos sem roupa antes da entrada. Essa nudez funcional é perfeitamente normal para os islandeses. Cresceram com ela. Não existe qualquer embaraço associado ao ato de tomar banho nos balneários. Mas isso não deve ser confundido com uma aceitação generalizada do nudismo recreativo em espaços públicos. Esta distinção é importante para qualquer visitante. Em locais como Reykjavik, Akureyri ou outras zonas urbanas, circular nu ou utilizar espaços públicos para fins naturistas seria visto como inadequado. A tolerância social existe, mas está acompanhada por um forte sentido de respeito pelas normas comunitárias. É precisamente por isso que considero a Islândia tão interessante. Não existe uma cultura de naturismo organizada. Existe uma cultura de respeito pela natureza e pela liberdade individual. Ao longo dos anos fiquei hospedado em dezenas de alojamentos rurais espalhados pelo país. Muitos possuem jacuzzis exteriores alimentados por água geotérmica. Alguns encontram-se literalmente no meio do nada. Pequenas quintas familiares. Casas isoladas junto a fiordes. Alojamentos remotos onde a propriedade mais próxima se encontra a vários quilómetros de distância. Nesses locais vivi alguns dos momentos mais extraordinários da minha vida de viajante. Lembro-me particularmente de uma noite de inverno no norte da Islândia. A temperatura exterior estava vários graus abaixo de zero. O céu encontrava-se completamente limpo. Entrei no jacuzzi exterior pouco antes da meia-noite. Durante mais de uma hora permaneci sozinho, rodeado apenas por neve e silêncio. Pouco depois começaram a surgir as primeiras auroras boreais. Ver uma aurora boreal já é uma experiência especial. Ver uma aurora boreal enquanto estamos mergulhados numa nascente geotérmica ao ar livre, sem qualquer ruído humano, sem iluminação artificial e sem necessidade de vestir mais do que a própria pele é algo que permanece na memória para sempre. A experiência produz uma sensação profunda de humildade perante a natureza. A Islândia tem essa capacidade. Reduz tudo ao essencial. Quando estamos sozinhos num vale dos Westfjords, numa praia remota da Península de Snæfellsnes ou numa nascente escondida junto a uma montanha do norte da ilha, conceitos como moda, aparência física ou constrangimento social perdem importância. A paisagem é tão poderosa que tudo o resto desaparece. Outro aspeto que considero relevante é a forma como o clima influencia esta experiência. Muitas pessoas associam naturismo a destinos quentes e soalheiros. A Islândia prova que isso não é necessariamente verdade. A relação entre água quente e ar frio cria sensações difíceis de encontrar noutras partes do mundo. Entrar numa nascente a quarenta graus enquanto a temperatura exterior se aproxima de zero constitui uma experiência sensorial extraordinária. É também importante referir que estas situações exigem responsabilidade. A natureza islandesa pode ser severa. O isolamento que torna estas experiências possíveis é precisamente o mesmo que pode gerar situações perigosas para quem não está preparado. Mudanças meteorológicas rápidas, terrenos difíceis e distâncias consideráveis exigem planeamento cuidadoso. Ao longo dos anos vi turistas assumirem riscos desnecessários simplesmente porque confundiram liberdade com ausência de regras. A Islândia continua a ser um país onde a natureza dita as condições. Qualquer experiência em locais remotos deve ser acompanhada por bom senso, conhecimento das condições meteorológicas e respeito absoluto pelo ambiente. Talvez seja precisamente esse equilíbrio que mais me atrai. A Islândia não oferece uma versão comercial do naturismo. Não vende uma experiência empacotada. Não cria espaços artificiais destinados a esse fim. Oferece apenas oportunidades genuínas para estarmos sozinhos perante algumas das paisagens mais belas do planeta. Depois de tantos anos a regressar à ilha, continuo convencido de que o verdadeiro luxo da Islândia não são os hotéis, os restaurantes ou os serviços turísticos. O verdadeiro luxo é o espaço. O silêncio. A ausência de multidões. A possibilidade de encontrar um vale inteiro apenas para nós. E é nesse contexto que surge naturalmente esta relação diferente com o corpo e com a natureza. Não como uma filosofia organizada. Não como uma atividade social. Mas como uma consequência lógica de nos encontrarmos num dos lugares mais remotos, mais puros e mais extraordinários do planeta. Se existe um país onde o naturismo individual faz sentido de forma espontânea e natural, esse país é a Islândia. Poucas paisagens no mundo conseguem transmitir de forma tão intensa a sensação de liberdade que encontramos entre os fiordes, as montanhas, as fontes termais e o silêncio absoluto do Atlântico Norte. E talvez seja precisamente por isso que continuo a regressar." Joao Oliveira @portuguesesemviagem |
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