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Marraquexe, situada no sopé da cordilheira do Atlas, no coração de Marrocos, chamada de "Cidade Vermelha", foi ao longo de quase mil anos,capital imperial, centro religioso, cruzamento de caravanas africanas, palco de intrigas dinásticas e símbolo do poder marroquino. O próprio nome do país poderá ter origem no nome da cidade, uma demonstração da importância que assumiu na história do Magrebe. Sabe mais no Blog dos Portugueses em Viagem. Compreender Marraquexe significa compreender uma parte significativa da história do Norte de África, das relações entre a Europa e o mundo islâmico e das grandes rotas comerciais que durante séculos ligaram o Mediterrâneo à África Subsaariana. Entre muralhas de adobe vermelho, mesquitas monumentais, jardins históricos e mercados vibrantes, cada rua da cidade guarda memórias de impérios, conquistas e transformações que moldaram o destino de uma região inteira. Antes de Marraquexe: o Sul de Marrocos antes da fundação da cidadeMuito antes da fundação de Marraquexe, o território era habitado por comunidades amazigh, frequentemente designadas como berberes. Estes povos desenvolveram culturas próprias ao longo de milhares de anos nas montanhas do Atlas, nos vales férteis e nas regiões desérticas do Saara. A posição geográfica da região permitia controlar importantes rotas comerciais. Caravanas atravessavam regularmente o deserto transportando ouro, sal, marfim, couro e escravos entre a África Ocidental e o Norte de África. Quando os exércitos árabes chegaram ao Magrebe no século VII, trouxeram consigo o Islão e novas estruturas políticas. Contudo, as populações amazigh mantiveram uma forte influência cultural e política, desempenhando um papel decisivo na história futura de Marrocos. A fundação de Marraquexe pelos AlmorávidasA história oficial de Marraquexe começa em 1070. Nesse ano, o líder almorávida Abu Bakr ibn Umar escolheu uma planície fértil situada entre as montanhas do Alto Atlas e o deserto para estabelecer uma nova capital. Os Almorávidas eram uma poderosa confederação amazigh oriunda das regiões saarianas da atual Mauritânia. Movidos por um forte ideal religioso e militar, criaram um império que rapidamente se expandiu por grande parte do Magrebe e da Península Ibérica. A localização da nova cidade não foi escolhida ao acaso. Marraquexe encontrava-se numa posição estratégica para controlar as rotas comerciais do Saara e facilitar a ligação entre o Norte de África e Al-Andalus. Poucos anos depois da fundação, a cidade transformou-se num importante centro político, económico e religioso. O nascimento de uma capital imperialSob o governo de Youssef ibn Tachfin, um dos mais importantes líderes almorávidas, Marraquexe conheceu um crescimento extraordinário. Foram construídas muralhas, mesquitas, mercados, palácios e sistemas hidráulicos que permitiram o abastecimento permanente de água. A cidade tornou-se rapidamente o coração de um império que se estendia desde o Senegal até Saragoça. Youssef ibn Tachfin ficou também conhecido pelo seu papel decisivo na Península Ibérica. Em 1086, atravessou o Estreito de Gibraltar para enfrentar os reinos cristãos e obteve uma importante vitória na Batalha de Zalaca. Durante este período, Marraquexe consolidou-se como uma das cidades mais importantes do mundo islâmico ocidental. A revolução AlmóadaNo século XII surgiu um novo movimento religioso e político que viria a transformar profundamente a cidade. Os Almóadas, liderados por Ibn Tumart e posteriormente por Abd al-Mumin, desafiaram o domínio almorávida e iniciaram uma campanha militar de grande dimensão. Em 1147, Marraquexe caiu nas mãos dos Almóadas. A mudança de dinastia trouxe profundas transformações urbanas. Os novos governantes demoliram alguns edifícios almorávidas e construíram monumentos que ainda hoje definem a identidade visual da cidade. Foi durante este período que nasceu a famosa Mesquita Koutoubia. A Mesquita Koutoubia: símbolo eterno de MarraquexeNenhum edifício representa melhor a cidade do que a Mesquita Koutoubia. Construída no século XII, tornou-se o principal símbolo arquitetónico da cidade e um dos monumentos mais importantes do mundo islâmico. O seu minarete, com cerca de 77 metros de altura, serviu de modelo para várias construções posteriores, incluindo a Giralda de Sevilha e a Torre Hassan de Rabat. A Koutoubia continua a dominar o horizonte urbano quase novecentos anos depois da sua construção. O monumento representa não apenas a importância religiosa da cidade, mas também o poder político dos Almóadas. O apogeu medievalDurante os séculos XII e XIII, Marraquexe atingiu o auge da sua influência. A cidade tornou-se um centro intelectual onde estudiosos, juristas, médicos, matemáticos e filósofos se reuniam vindos de todo o mundo islâmico. Entre as figuras associadas a este período destaca-se Averróis, um dos maiores filósofos da história medieval. As caravanas continuavam a chegar carregadas de ouro proveniente dos reinos da África Ocidental. Este comércio permitiu financiar obras públicas, escolas religiosas e uma intensa atividade cultural. Marraquexe era então uma das cidades mais ricas de África. O declínio e a ascensão de Fez A partir do século XIII, a situação começou a mudar. Os Merínidas conquistaram o poder e transferiram a capital para Fez. Marraquexe perdeu parte da sua influência política, embora continuasse a desempenhar um papel importante no comércio e na religião. Durante vários séculos, a cidade viveu períodos alternados de prosperidade e declínio. Apesar disso, nunca perdeu completamente o seu prestígio histórico. As suas muralhas, mesquitas e palácios continuaram a atrair comerciantes, peregrinos e viajantes. Os Saadianos e o renascimento de MarraquexeNo século XVI, Marraquexe voltou a ocupar o centro da política marroquina. A dinastia Saadiana escolheu a cidade como capital e iniciou um vasto programa de construção. Foi nesta época que surgiu um dos monumentos mais impressionantes de Marrocos: os Túmulos Saadianos. O sultão Ahmed al-Mansur transformou Marraquexe numa capital luxuosa, financiada em grande parte pelas riquezas provenientes do comércio transaariano. A vitória marroquina na Batalha dos Três Reis, em 1578, reforçou ainda mais o prestígio da dinastia. Sob o governo saadiano, Marraquexe recuperou parte do esplendor perdido durante os séculos anteriores. As relações com PortugalA história de Marraquexe está intimamente ligada à história portuguesa. Durante os séculos XV e XVI, Portugal estabeleceu várias posições militares e comerciais ao longo da costa marroquina. As relações oscilaram entre alianças diplomáticas, comércio e conflito militar. O episódio mais marcante ocorreu em 1578, quando o rei português D. Sebastião liderou uma expedição militar contra Marrocos. A campanha terminou na Batalha de Alcácer-Quibir, um dos acontecimentos mais importantes da história portuguesa. A derrota portuguesa provocou uma crise sucessória que culminou na União Ibérica. Embora a batalha tenha ocorrido longe de Marraquexe, as consequências fortaleceram significativamente o poder dos governantes sediados na cidade. O período AlaouitaNo século XVII, a dinastia Alaouita assumiu o controlo de Marrocos. Esta é a mesma dinastia que continua a governar o país atualmente. A capital foi novamente transferida para outras cidades, sobretudo Meknes e posteriormente Rabat. Marraquexe manteve, contudo, um papel relevante como centro regional, religioso e comercial. Muitos dos palácios e jardins históricos que hoje atraem visitantes foram ampliados ou restaurados durante este período. O protetorado francêsEm 1912, Marrocos tornou-se protetorado francês. Marraquexe entrou numa nova fase da sua história. Os franceses desenvolveram infraestruturas modernas, estradas, serviços públicos e novos bairros urbanos. Ao contrário do que aconteceu noutras cidades coloniais, procurou-se preservar grande parte da medina histórica. Esta política contribuiu para a conservação do património arquitetónico que hoje constitui uma das principais atrações da cidade. Marraquexe após a independênciaCom a independência de Marrocos em 1956, Marraquexe iniciou um processo de modernização acelerada. O turismo tornou-se gradualmente um dos pilares da economia local. Artistas, escritores e celebridades internacionais começaram a visitar regularmente a cidade. Entre os nomes associados a Marraquexe encontram-se Winston Churchill, Yves Saint Laurent, Paul Bowles e vários membros da realeza europeia. A fama internacional da cidade cresceu continuamente ao longo do século XX. A Praça Jemaa el-FnaNenhum local simboliza melhor a alma de Marraquexe do que a Praça Jemaa el-Fna. Durante séculos funcionou como mercado, local de encontros, espaço de celebrações públicas e centro da vida urbana. Ao entardecer transforma-se num enorme palco ao ar livre. Músicos, contadores de histórias, vendedores, artistas e cozinheiros criam uma atmosfera única no mundo. Em 2001, a UNESCO reconheceu a praça como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Marraquexe no século XXIHoje, Marraquexe é uma das cidades mais visitadas de África. Milhões de turistas chegam anualmente para explorar os seus mercados, palácios, jardins e monumentos históricos. A cidade soube equilibrar tradição e modernidade de forma notável. Os antigos riads convivem com hotéis de luxo. As carroças puxadas por cavalos cruzam-se com automóveis modernos. As técnicas artesanais transmitidas ao longo de séculos continuam presentes nos souks. próximas viagens a marrocosA história de Marraquexe é a história de uma cidade que nasceu do deserto para se tornar uma das grandes capitais do mundo islâmico. Fundada pelos Almorávidas, transformada pelos Almóadas, revitalizada pelos Saadianos e preservada ao longo dos séculos, a Cidade Vermelha permanece como um dos mais extraordinários testemunhos da civilização marroquina. Para os Portugueses em Viagem, percorrer as suas ruas é viajar através de quase mil anos de história, onde África, Europa e o mundo árabe se encontram num cenário que continua a fascinar viajantes de todas as gerações. |
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