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No sudoeste da Bolívia, o viajante pode facilmente acreditar que entrou num território vazio. Há vulcões, planícies varridas pelo vento, salares, lagoas povoadas por flamingos e enormes extensões onde uma casa parece desaparecer na escala da paisagem. Essa impressão engana. Estas terras são habitadas, percorridas e ritualizadas há muitos séculos. Sabe mais no blog dos Portugueses em Viagem. As montanhas são Mallkus, a Pachamama alimenta os animais através das pastagens, as lhamas possuem ánimu e os caminhos das antigas caravanas estão ligados a lugares onde humanos e outras entidades estabelecem relações de reciprocidade. Conhecer esta realidade muda a tua forma de olhar para o Salar de Uyuni. É tentador descrevêer os Lipez simplesmente como um antigo povo indígena boliviano. Documentos espanhóis do século XVI começaram por falar em “indios lipes” e, posteriormente, utilizaram categorias como aimarás e urus para classificar habitantes da região. O historiador José Luis Martínez demonstrou que estas classificações não podem ser lidas como um mapa fiel das identidades indígenas anteriores à conquista pois respondiam apenas às necessidades administrativas, tributárias e políticas do poder colonial. O Altiplano de Lípez possui ocupação humana muito anterior aos Incas e à chegada dos espanhóis. Investigações arqueológicas documentam ocupações desde períodos antigos e mostram que, no período pré-hispânico tardio, o território estava ligado através de caminhos e intercâmbios a Atacama, aos vales do sul da actual Bolívia e a outras zonas do Altiplano. A chave para compreender esta sociedade está, em grande medida, nas lhamas. Em vastas zonas do Sud Lípez, acima dos 4000 metros, o frio e a aridez tornam a agricultura extremamente difícil ou impossível. A pastorícia especializada permitiu ocupar estes ambientes. Fontes coloniais do século XVI descrevem populações da região combinando criação de animais, caça, recolha e exploração dos recursos das lagoas e zonas húmidas. A importância da lhama, contudo, ultrapassa a alimentação. Durante séculos foi também o grande animal de transporte dos Andes meridionais. Caravanas atravessavam centenas de quilómetros transportando sal e outros produtos do Altiplano e regressavam dos vales com milho e diferentes mercadorias. Os antigos caminhos conservam acampamentos, cerâmica, pequenos abrigos e estruturas relacionadas com as viagens. O Sud Lípez aparentemente isolado fazia, portanto, parte de uma vasta rede de circulação. A mobilidade era uma forma de sobrevivência, comércio, comunicação e construção de relações sociais essenciais para a manutenção do Grande Império inca. É neste mundo pastoril que encontramos uma ideia fundamental para compreender a cosmologia de Lípez: a sociedade não termina nos seres humanos. A pastorícia deve ser compreendida como uma rede de relações envolvendo famílias, comunidade, rebanhos e entidades divinas. Entre estas encontram-se os Mallkus, montanhas dotadas de género, genealogia e hierarquia. As suas características físicas ajudam a expressar essas posições. Uma montanha maior, mais elevada ou dominante no horizonte pode possuir uma importância superior. Em Cerrillos, Tres Cerrillos é o Mallku principal da comunidade. Mas encontra-se hierarquicamente relacionado com Bonete, montanha ainda mais elevada situada em direcção a San Pablo de Lípez, antiga cabeça do ayllu. Os Mallkus “colocam a semente” dos animais, o seu ánimu, e estão relacionados com a reprodução, o número e qualidade dos rebanhos. A Pachamama, corporizada nos campos e pastagens, desempenha outra função: alimenta e sustenta os animais. Em determinadas explicações etnográficas, Mallku e Pachamama chegam a ser concebidos através de uma relação conjugal em que a paisagem participa directamente na vida quotidina. Esta concepção ajuda a compreender por que razão as montanhas sagradas dos Andes possuem uma importância que não pode ser reduzida à religião no sentido europeu do termo e estiveram historicamente associadas a territórios, relações políticas e práticas religiosas. Os Incas compreenderam essa importância e incorporaram, transformaram ou resignificaram lugares sagrados locais à medida que expandiram o seu Império (Tawantinsuyu). Algumas montanhas funcionavam como referências territoriais e centros de poder ritual. Séculos depois, a evangelização católica tentou enquadrar muitas destas práticas dentro de uma cosmologia cristã. O resultado foram sobreposições, reformulações e novas associações. Santos, cruzes e festas católicas passaram a coexistir com Pachamama, montanhas tutelares e outras entidades. O Spíritu é celebrado anualmente em Tres Cerrillos, na alta puna de Lípez, acima dos 4000 metros. Trata-se de uma celebração comunitária destinada à multiplicação e ao bem-estar do gado e das pessoas. A data situa-se entre finais de Maio e princípios de Junho, durante o Pentecostes. O momento é significativo no calendário pastoril pois acontece quando termina a estação das chuvas, associada aos nascimentos, reprodução e maiores cuidados com os rebanhos, e começa a época seca. Era também o período em que homens e lhamas partiam tradicionalmente em caravanas, levando sal para os vales e regressando com milho e outros produtos. Na década de 1980, um habitante que vivia junto de Tres Cerrillos retomou a prática seguindo os ensinamentos do pai. Actualmente, reúne habitantes da área, autoridades originárias e outros participantes. A cerimónia revela a complexidade dessa cosmologia. Os participantes circundam ritualmente o espaço e dirigem-se às montanhas poderosas visíveis no horizonte, entre elas Tres Cerrillos, Bonete, Cerro Lípez e Cubincho. Há incenso, álcool, coca e outros elementos de oferenda. Uma lhama é escolhida e preparada de uma forma que evoca simbolicamente uma partida em caravana: recebe um saco sobre o dorso, um chocalho ao pescoço e adornos de lã. Há gestos de cuidado para com o animal e manifestações de pesar antes do seu sacrifício. Partes da lhama são depois oferecidas ritualmente. Sangue, coração, gordura, ossos e outras matérias entram num complexo sistema de relações entre humanos e entidades como Tres Cerrillos e Pachamama. Seria demasiado simples interpretar tudo isto apenas como “sacrifício aos deuses”. O sacrifício faz parte de uma lógica de recíprocidade: os Mallkus estão ligados à força reprodutiva dos animais, os humanos criam os animais até serem adultos; a Pachamama alimenta os rebanhos através das pastagens; os animais sustentam os humanos e os humanos devolvem parte dessa riqueza através das oferendas. A prosperidade depende da manutenção destas relações. Há ainda outra dimensão dos rituais Lipez: produzir comunidade. Os pastores vivem dispersos por territórios enormes. Centenas de quilómetros quadrados, com unidades domésticas separadas e rebanhos familiares. Nesse contexto, reunir-se não é um acontecimento banal. A cerimónia leva famílias e autoridades a partilhar o mesmo espaço e a reafirmar vínculos colectivos. Há circulação de alimentos, coca, bebidas e objectos rituais e obrigações associadas a quem assume determinadas funções cerimoniais. E essas relações possuem consequências concretas. Os membros da comunidade partilham direitos sobre pastagens comunais e participam nas decisões colectivas. A relação entre território e ritual continuava muito para além da aldeia. Durante as viagens dos pastores de Lípez em direcção aos vales orientais, havia cerimónias realizadas em diferentes pontos do percurso: na casa, antes da partida e depois do regresso; em locais elevados próximos da habitação; nas passagens de montanha; em lugares considerados perigosos; nas áreas de descanso e à entrada dos vales de Tarija. As entidades invocadas podiam variar. Entre elas estavam as próprias lhamas, objectos das caravanas, o caminho, Pachamama, o Mallku local e montanhas avistadas durante a viagem. Podia bastar pronunciar um nome ou derramar um pouco de álcool. Noutros locais realizavam-se cerimónias mais elaboradas. Esta geografia ritual ajuda-nos a perceber uma característica essencial da cosmologia andina: viajar significava relacionar-se com o caminho. A cosmologia de Lípez não organiza o mundo segundo fronteiras rígidas entre pessoa, animal, objecto, antepassado e paisagem. As montanhas são ainda referências territoriais, políticas e espirituais. As comunidades desenvolveram tradições e formas colectivas de gerir territórios que permanecem em vigor. O mais importante compreender quando se visita o Salar de Uyuni é que os Lípez não pertencem simplesmente a um passado desaparecido. Devem ser imaginados como uma cultura viva e secreta que se escondeu com a chegada das invasões do ocidente. marca a tua aventura |
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