|
A minha vida tem sido uma aventura em viagem. Ainda antes do meu trabalho nos Portugueses em Viagem, a minha geografia humana e pessoal começou a estender-se pelo mundo aos 18 anos, quando parti no meu primeiro inter-rail, numa altura em que ainda não existia o euro e poucos usavam telemóvel. Mais de vinte anos depois, com o mundo completo na bagagem, sempre que regresso a Portugal, vejo-me meio solto entre amigos que construiram fortalezas impecáveis. Constroem-nas tijolo por tijolo, com bens materiais, agendas preenchidas, seguros e rotinas que se repetem como um mantra. E tudo está bem até ao dia em que sentem a alma asfixiada num espaço demasiado arrumado. Por mais que lhes prescreva o segredo da felicidade mais conhecido do mundo, viajar à aventura, não são capazes de o fazer. Falta coragem. E estes são os seus sete medos mais comuns. O primeiro receio que partilham, envolto em argumentos lógicos, é o medo do acaso. Querem um contrato assinado com o destino. "E se algo correr mal?" perguntam. Em viagem aprendi que o que chamamos de "acaso" é, na verdade, a única janela através da qual o espontâneo nos visita. Quando reserva uma viagem de aventura, não está a comprar um itinerário; está a comprar permissão para a liberdade. A vertigem que sente ao olhar para o botão "reservar" é o seu instinto mais antigo a reconhecer que vai, finalmente, respirar. O segundo medo comum é o da solidão. "Viajar sozinho é um atestado de fracasso" pensa muita gente secretamente. Mas deixo-lhes a minha experiência: nunca se está tão acompanhado como quando se está disponível para o mundo. Em casa, em família, em casal, somos o papel que nos atribuíram. Na estrada, sem o cenário conhecido, as pessoas veem-nos como um livro em branco. A aventura é o único espaço onde um estranho pode tornar-se, em quinze minutos, num irmão de alma, porque ambos partilham o mesmo desafio. O medo de que muita gente tem de estar sozinho é, na verdade, o medo de finalmente encontrar quem somos quando ninguém está a ver. Pense nisso. Há depois um terceiro medo, que vou chamar "medo do corpo". É curioso como cada vez mais tanta gente trata o nosso corpo como uma espécie de inimigo frágil. "Não tenho idade para isto", dizem aos 45, aos 55, aos 65. Mas o corpo não morre por ser usado: morre por ser poupado. Subir uma montanha, remar contra a corrente, sentir o cansaço verdadeiro, são deliciosas provas de vida. A morte não mora na aventura, a morte mora na repetição insípida, no sofá onde se adormece antes do jantar, na vida que se passa a observar os outros através de um ecrã. O quarto medo é o mais profundo de todos: a culpa. A voz dos familiares que nos diz que prazer é desperdício, que lazer é preguiça, que gastar dinheiro numa experiência nova é um luxo desnecessário. Permitam-me subverter isso: a viagem de aventura, sobretudo se for efectivamente aventura, não é um gasto, mas um investimento valioso e imbativel. Ao longo de duas décadas em viagem, vi entre os meus amigos casamentos desmoronarem-se por falta de histórias para contar, executivos entrarem em burnout porque esqueceram que existe um mundo para além do "status", vi inúmera gente envelhecer antes do tempo por ter trocado o risco pela segurança absoluta. O preço de não viajar é bem alto e paga-se em angústia e tristeza. O quinto medo é o mais absurdo de todos: o medo do desconforto. Absurdo porque o desconforto é o seu aliado. Quando nos dizem que precisamos de sair da zona de conforto, é de facto um lugar-comum de tão verdadeiro que é. O conforto é um anestésico: a rua confusa, as tradições chocantes, a comida estranha, são eles que afinam os seus sentidos. Em casa você dorme num colchão confortável. Em viagem você descansa onde for, porque finalmente o corpo vive em pleno cada minuto de cada dia. O sexto medo é o medo do ridículo. O medo de não saber remar, escalar, nadar ou falar o idioma local, e ser visto como um tolo. "Não sei", confessa o homem ou a mulher que, por fora, parece dominar todas as salas de reunião. A aventura é o único lugar onde o saber é secundário. As montanhas não perguntam o seu currículo. O mar não quer saber o seu título. Mas é precisamente aí que a alma respira aliviada: no direito de ser principiante, de aprender, de cair, de ser comum, de voltar a ter os pés na terra e receber de volta a humildade de ser apenas humano. Por último, o sétimo medo, é o mais difícil de acreditar mas que existe em demasia: o medo de ser feliz. Há um pânico silencioso e frequentemente inconsciente de que a aventura funcione demasiado bem. De que a experiência seja tão transformadora que a pessoa regresse e já não caiba na sua própria casa, no seu casamento, no seu emprego, na sua identidade construída com tanto esforço. Este é o mais traiçoeiro dos receios porque se disfarça de prudência. Mas, a viagem de aventura não o transforma num estranho. Transforma-o na pessoa que sempre viveu dentro de si, à espera de permissão para existir. E esse encontro consigo mesmo, sem as máscaras do escritório e das obrigações sociais, é simultaneamente o mais libertador e o mais aterrorizante que pode acontecer a um ser humano. É aqui que reside a ironia final: o medo de regressar diferente de uma Expedição é, na verdade, o medo de finalmente se tornar quem se é. Há vinte anos que ouço pessoas a dizerem que vão viajar “quando”. Quando tiverem mais dinheiro. Quando os filhos crescerem. Quando o projeto acabar. Quando a ansiedade passar. A ansiedade não passa dentro de casa. Ela só se desfaz na curva de um horizonte novo e desconhecido , quando perceber, com o vento no rosto, que o mundo é muito maior do que os seus medos. Não estou a afirmar que não há riscos. Há muitos, mas é por isso que deve ir. Porque o risco maior é o de voltar diferente, de descobrir que o que lhe faltava não era um novo emprego, um namoro, ou um carro novo, mas um novo fôlego. Há o risco de perceber que é mais forte do que imagina. Há o risco de sentir medo durante o percurso e, ao superá-lo, nunca mais ter medo de si mesmo. Partir em viagem, reservar uma Expedição, é um ato de agressividade saudável contra a procrastinação da felicidade. É uma vitória sobre todos estes medos que travam a sua verdadeira identidade. Permita-se a liberdade e a aventura. Permita-se o deslumbre, o distante e o desconhecido. Permita-se a viagem como quem permite um amor: sem rede, sem certezas, mas com a absoluta garantia de que é isso que faz com que a vida mereça o nome que lhe damos. João Oliveira @portuguesesemviagem LER MAIS
|
MAIS ARTIGOS!Escolhe o tema:
Tudo
|