|
Viajar pelos Parques Nacionais da Bolívia é atravessar alguns dos ecossistemas mais distintos da América do Sul. Num único país podemos caminhar junto de vulcões com mais de 6000 metros, entrar em florestas amazónicas, procurar jaguares no Gran Chaco, descobrir pegadas de dinossauros, atravessar bosques de neblina e chegar a planícies tropicais onde a presença humana parece distante. Sabe mais no Blog dos Portugueses em Viagem O sistema boliviano de áreas protegidas conserva uma parcela extraordinária deste património, e o SERNAP continua a gerir 23 áreas protegidas de interesse nacional. Entre elas encontramos 13 áreas com categoria de Parque Nacional, algumas acumulando a classificação de Área Natural de Manejo Integrado, ou ANMI: Sajama, Tunari, Isiboro Sécure, Noel Kempff Mercado, Torotoro, Carrasco, Amboró, Cotapata, Madidi, Kaa-Iya del Gran Chaco, Otuquis, Serranía del Aguaragüe e Serranía del Iñao. Estes são destinos que representam exactamente aquilo que procuramos nas nossas viagens e expedições: natureza, aventura, culturas locais e territórios onde ainda é possível sentir a dimensão física do planeta. O Parque Nacional Sajama, no departamento de Oruro, merece começar esta viagem por uma razão histórica: foi a primeira área protegida da Bolívia, criada em 1939. É aqui que se ergue o Nevado Sajama, com 6542 metros, o ponto mais alto do país. À sua volta estende-se uma paisagem de Altiplano onde surgem vulcões, lagoas, bofedales, águas termais e extensões de vegetação adaptada ao frio e à altitude. Vicunhas, flamingos e outras espécies andinas encontram habitat nestas terras elevadas. Mais a leste, no departamento de Cochabamba, o Parque Nacional Tunari protege outra secção importante dos Andes bolivianos, dominada pelo maciço do Tunari. A proximidade da cidade de Cochabamba torna-o um dos parques mais acessíveis desta lista. Para o viajante interessado em caminhadas e paisagem de montanha, Sajama e Tunari revelam duas expressões diferentes dos Andes bolivianos. No centro do país surgem dois territórios muito distintos. O Parque Nacional Carrasco, em Cochabamba, ocupa uma região de transição entre os Andes e as terras tropicais. As variações de altitude criam ambientes que passam das montanhas aos bosques húmidos, favorecendo uma biodiversidade elevada. Nas suas florestas vivem mamíferos, aves e uma enorme diversidade vegetal, embora várias áreas tenham acesso condicionado pela própria necessidade de conservação. Mais a sul, no departamento de Potosí, o Parque Nacional Torotoro proporciona uma experiência completamente diferente. Aqui são a geologia e a paleontologia que dominam a visita. Cânions, cavernas, formações calcárias, fósseis e pegadas de dinossauros transformaram Torotoro num dos destinos de natureza mais conhecidos da Bolívia. A pequena povoação de Torotoro funciona como base para explorar a região e grande parte das visitas realiza-se através de percursos acompanhados por guias locais. No departamento de Santa Cruz encontra-se o Parque Nacional e Área Natural de Manejo Integrado Amboró, um dos grandes pontos de encontro biológico da Bolívia. A localização entre os Andes, a Amazónia, o Chaco e outras formações tropicais ajuda a explicar a diversidade das suas paisagens. Florestas húmidas, vales, rios, montanhas e vegetação exuberante criam habitat para uma fauna igualmente variada. O parque pode ser explorado a partir de diferentes zonas e constitui uma das grandes opções para quem procura ecoturismo na Bolívia sem viajar até às regiões amazónicas mais remotas. No mesmo departamento existe um território ainda mais isolado: o Parque Nacional Noel Kempff Mercado. A UNESCO considera-o um dos parques de maior dimensão e melhor conservados da Bacia Amazónica. Tem mais de 1,5 milhões de hectares, altitudes entre aproximadamente 200 e 1000 metros e um mosaico de floresta amazónica, cerrado, savanas, palmeirais, zonas pantanosas e florestas . A organização estima a existência de cerca de 4000 espécies de plantas e mais de 600 espécies de aves. Foi inscrito como Património Mundial da UNESCO em 2000. Continuando pelo leste boliviano chegamos a duas áreas protegidas que mostram uma Bolívia raramente associada às imagens clássicas do Altiplano. O Parque Nacional e Área Natural de Manejo Integrado Kaa-Iya del Gran Chaco, em Santa Cruz, protege uma vasta região do Gran Chaco, um ecossistema de florestas secas e ambientes adaptados a temperaturas elevadas e longos períodos sem chuva. É território de grandes mamíferos sul-americanos e uma região particularmente importante para a conservação do jaguar. A dimensão e o isolamento tornam a visita muito diferente de um parque convencional. Mais a leste, junto às fronteiras com Brasil e Paraguai, o Parque Nacional e Área Natural de Manejo Integrado Otuquis protege zonas húmidas associadas ao grande sistema do Pantanal. Aqui encontramos planícies sazonalmente inundadas, cursos de água e habitats essenciais para aves aquáticas e outros animais. Kaa-Iya e Otuquis mostram como as áreas protegidas bolivianas se integram em ecossistemas que ultrapassam largamente as fronteiras políticas do país. No departamento de La Paz encontramos dois parques que permitem compreender uma das características mais impressionantes da geografia boliviana: a descida vertiginosa dos Andes para a Amazónia. O Parque Nacional e Área Natural de Manejo Integrado Cotapata fica relativamente próximo da capital. As montanhas dão lugar aos Yungas e os ambientes frios das zonas altas transformam-se progressivamente em bosques húmidos. É nesta região que se encontra o histórico Choro, um percurso pedestre que desce das terras altas para os vales subtropicais seguindo caminhos utilizados desde períodos anteriores à chegada dos espanhóis. Mais a norte começa um território de outra escala: o Parque Nacional e Área Natural de Manejo Integrado Madidi. Criado em 1995, possui cerca de 1,9 milhões de hectares e apresenta um gradiente altitudinal de quase 6000 metros, desde a Cordilheira de Apolobamba até às planícies amazónicas. Poucos lugares permitem perceber tão claramente como altitude, temperatura e precipitação podem criar mundos biológicos radicalmente diferentes dentro da mesma área protegida. O Madidi merece atenção especial porque se encontra entre os territórios biologicamente mais ricos estudados no planeta. A Wildlife Conservation Society identifica actualmente 9193 espécies no parque e refere que ali ocorre cerca de 40% das plantas, 48% das borboletas diurnas e 50% dos vertebrados registados na Bolívia. As aves conhecidas no parque correspondem a cerca de 71% das espécies do país. Entre os animais presentes encontram-se jaguar, urso-andino, lontra-gigante, condor-dos-Andes, veado-do-pantanal e diferentes espécies de primatas. A diversidade resulta, em grande medida, da combinação entre Andes tropicais e Amazónia. O parque inclui bosques amazónicos, savanas inundáveis, florestas de montanha, bosques secos interandinos, pastagens de altitude e picos cobertos de neve. Há ainda uma importante dimensão humana. Comunidades indígenas e camponesas vivem dentro ou estão territorialmente ligadas à área protegida, incluindo populações Tacana, Uchupiamonas, Lecos, Quechua e Aymara. Para os viajantes, Rurrenabaque tornou-se uma das principais portas de entrada para experiências ligadas ao Madidi e às terras baixas vizinhas. Há também parques onde conservação ambiental e territórios indígenas estão profundamente ligados. O Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure, conhecido universalmente pela sigla TIPNIS, estende-se entre os departamentos de Beni e Cochabamba. A sua própria designação oficial revela uma realidade fundamental: não estamos perante um território vazio reservado exclusivamente à vida selvagem. É simultaneamente parque nacional e território indígena. Florestas, rios e comunidades fazem parte da mesma paisagem. Esta dimensão humana deve ser considerada por qualquer viajante que procure compreender as áreas protegidas bolivianas. A conservação na Bolívia envolve frequentemente comunidades que vivem nestes territórios há gerações. Viajar por estas regiões exige respeito pelas comunidades, pelos regulamentos ambientais e pelas restrições de acesso estabelecidas localmente. No sul da Bolívia encontramos ainda o Parque Nacional e Área Natural de Manejo Integrado Serranía del Aguaragüe, no departamento de Tarija, e o Parque Nacional e Área Natural de Manejo Integrado Serranía del Iñao, em Chuquisaca. Ambos protegem serras, florestas e sistemas hidrográficos de grande relevância regional. O Aguaragüe ergue-se junto da planície chaqueña e desempenha uma função importante na conservação das nascentes e cursos de água utilizados pelas populações da região. O Iñao conserva ambientes de transição e uma combinação de ecossistemas andinos e subtropicais. São nomes muito menos conhecidos pelo turismo internacional do que Madidi, Sajama ou Torotoro. Essa menor notoriedade também ajuda a perceber a verdadeira extensão do património natural boliviano. Os 13 Parques Nacionais da Bolívia formam, assim, um extraordinário corte transversal pela geografia da América do Sul. Sajama e Tunari levam-nos aos Andes. Carrasco, Amboró e Cotapata mostram a transição das montanhas para os bosques tropicais. Torotoro transporta-nos para uma paisagem de cânions, cavernas e vestígios paleontológicos. Madidi guarda uma concentração excepcional de biodiversidade. Noel Kempff Mercado protege mais de 1,5 milhões de hectares e possui estatuto de Património Mundial da UNESCO. Kaa-Iya conduz-nos ao Gran Chaco, enquanto Otuquis abre as portas do Pantanal. TIPNIS evidencia a ligação entre conservação e territórios indígenas. Aguaragüe e Iñao completam este mapa nas serras do sul. Para quem prepara uma viagem à Bolívia, estes parques revelam um país muito mais diverso do que a imagem habitual do Salar de Uyuni e do Altiplano. São treze razões para prolongar a viagem, colocar as botas de caminhada na mochila e descobrir uma das geografias mais surpreendentes da América Latina. marca a tua aventura na bolívia |
MAIS ARTIGOS!Escolhe o tema:
Tudo
Autor |