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Por vexes a geografia decide o destino das civilizações. O Estreito de Ormuz é um deles. Este corredor estreito, entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, continua a ser uma das rotas mais críticas do planeta. Foi conquistado duas vezes por Portugal. Sabe mais mo Blog dos Portugueses em Viagem. o controlo do estreito de ormuz ao longo do tempoDurante a Antiguidade, o controlo desta passagem esteve nas mãos de grandes potências persas, como o Império Aqueménida e mais tarde o Império Sassânida. Estes impérios compreenderam cedo o valor estratégico do Golfo Pérsico. Através deste estreito circulavam mercadorias entre a Mesopotâmia, a Índia e a Ásia Central. O comércio marítimo era vital para a riqueza e estabilidade da região. Com a expansão islâmica no século VII, o controlo passou para os grandes califados árabes. O Califado Omíada e o Califado Abássida transformaram Ormuz num ponto essencial das rotas comerciais do mundo islâmico. As cidades portuárias prosperaram. Mercadores transportavam especiarias, tecidos e metais preciosos entre o Médio Oriente, a Índia e o Extremo Oriente. Entre os séculos X e XVI, emergiu uma potência local com enorme influência: o Reino de Ormuz. Este reino controlava diretamente o comércio regional e acumulou riqueza significativa. A sua capital, situada na ilha de Ormuz, tornou-se um dos portos mais ricos do mundo medieval. Relatos históricos, descrevem mercados vibrantes e uma diversidade cultural notável. A cidade de Ormuz destacava-se também pela sua diversidade cultural e religiosa. Comerciantes vindos da China, do Império Otomano, da África Oriental e do subcontinente indiano conviviam num ambiente cosmopolita raro para a época. Fontes como o viajante Ibn Battuta descrevem Ormuz como uma cidade de luxo extremo, onde a escassez de água potável obrigava à sua importação, mas onde a riqueza permitia sustentar esse custo elevado sem comprometer o dinamismo económico. A chegada dos portugueses mudou o equilíbrio de poder. Em 1507, Afonso de Albuquerque conquistou Ormuz, integrando o território no Império Português. Foi construída uma fortaleza que ainda hoje existe em ruínas. Portugal passou a controlar o tráfego marítimo na região, impondo taxas e assegurando uma presença militar contínua durante mais de um século. O domínio português terminou em 1622. O Império Safávida, liderado por Abbas I da Pérsia, recuperou o controlo com o apoio da Companhia Inglesa das Índias Orientais. Este episódio marcou o início de uma nova fase de competição internacional pelo controlo das rotas comerciais. A influência europeia tornou-se cada vez mais evidente no Golfo Pérsico. Nos séculos XIX e XX, o Império Britânico assumiu um papel dominante na região. Embora não tenha governado diretamente o estreito, controlou politicamente os territórios vizinhos, incluindo Omã e os atuais Emirados Árabes Unidos. A prioridade era clara: garantir a segurança das rotas marítimas, sobretudo com o crescimento da indústria petrolífera. Hoje, o Estreito de Ormuz é partilhado entre o Irão e Omã. A sua importância mantém-se crítica. Cerca de um quinto do petróleo mundial passa por este corredor marítimo. Para quem viaja, Ormuz não é apenas geopolítica. A ilha oferece paisagens únicas, com montanhas coloridas e um ambiente quase surreal. A península de Musandam, em Omã, revela fiordes áridos e águas profundas. São destinos pouco explorados, mas com enorme valor para viajantes que procuram história e autenticidade. O PAÍS QUE CONQUISTOU ORMUZ DUAS VEZESEm 1507, Afonso de Albuquerque chegou ao Estreito de Ormuz com um objectivo claro: controlar uma das rotas comerciais mais importantes do mundo. Integrado na estratégia do Império Português, Albuquerque procurava dominar os pontos-chave entre o Atlântico e o Índico. Nesse primeiro momento, conseguiu impor a sua autoridade ao Reino de Ormuz, forçando o seu governante a aceitar vassalagem. Iniciou de imediato a construção de uma fortaleza, mas enfrentou resistência interna entre os próprios capitães portugueses, o que o obrigou a abandonar temporariamente a posição.Durante os anos seguintes, Albuquerque consolidou o poder português noutras frentes decisivas, como Goa e Malaca. Estas conquistas permitiram-lhe regressar a Ormuz com maior força e legitimidade. Em 1515, voltou ao Golfo Pérsico com uma armada organizada e um plano claro de domínio permanente. Desta vez, encontrou um cenário político instável no reino local, o que facilitou a intervenção portuguesa. Na segunda conquista, Albuquerque actuou com rapidez e precisão. Tomou controlo efectivo da ilha e concluiu a construção da fortaleza, transformando Ormuz num ponto estratégico do império português no Oriente. A posição permitia controlar o tráfego marítimo no Golfo Pérsico e impor taxas aos navios comerciais. O domínio português em Ormuz consolidou-se assim como peça essencial da rede de fortalezas que ligava Lisboa à Ásia. Albuquerque conseguiu integrar o estreito numa estratégia global que incluía o controlo de pontos-chave como o Cabo da Boa Esperança, Goa e Malaca. Este sistema permitia aos portugueses influenciar o comércio entre a Europa, a Índia e o Médio Oriente, numa lógica de domínio marítimo sustentado. Pouco depois desta conquista decisiva, Afonso de Albuquerque iniciou a viagem de regresso a Goa. Já debilitado, recebeu a notícia de que tinha sido substituído no cargo de governador. Morreu em Dezembro de 1515 a bordo da sua nau, ao largo da costa de Goa. O seu corpo foi mais tarde sepultado na cidade que ajudou a transformar no principal centro do poder português no Oriente. No contexto dos Portugueses em Viagem, este é um destino que liga diretamente Portugal ao mundo. A presença portuguesa na ilha de Ormuz no Irão é um capítulo relevante da expansão marítima. As ruínas da fortaleza são testemunho de uma época em que Lisboa influenciava rotas globais. Visitar este local é compreender uma parte essencial da história portuguesa. O Estreito de Ormuz continua a ser um ponto de tensão e interesse internacional. Ao longo dos séculos, foi controlado por impérios persas, califados islâmicos, um reino comercial independente, Portugal, potências europeias e estados modernos. A sua importância nunca diminuiu. Hoje, tal como no passado, quem controla Ormuz influencia o equilíbrio global. |
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