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Odivelas fica a 12 km de Lisboa. Tem 145 000 habitantes. E é, a todos os efeitos, um dos municípios mais desconhecidos do país em proporção ao seu tamanho. Quando se pesquisa "o que fazer em Odivelas", os resultados remetem quase todos para Lisboa, como se a cidade não existisse por si mesma. Esse silêncio digital esconde uma realidade inesperada: Odivelas tem um Monumento Nacional com mais de 700 anos, o túmulo de um rei que fundou Portugal tal como o conhecemos, uma aldeia que abasteceu de água a capital durante séculos, um monumento medieval de origem incerta e um doce conventual com indicação geográfica protegida. Um dia é mais do que suficiente para descobrir tudo isto. E surpreender-se genuinamente. Saiba mais no Blog dos Portugueses em Viagem COMO CHEGAR A ODIVELASChegar a Odivelas a partir de Lisboa é das coisas mais simples que existem na Área Metropolitana. A linha Azul do Metro de Lisboa chega directamente até à estação Odivelas, terminus da linha, em cerca de 20 minutos a partir do Marquês de Pombal. Os comboios da linha de Sintra também servem o município, com paragem na estação de Reboleira, a poucos minutos de autocarro do centro. De carro, Odivelas fica a 15 a 20 minutos de Lisboa pelo IC17, sem portagens. O estacionamento gratuito é abundante fora do centro. A recomendação para quem vem de Lisboa é o metro — rápido, barato e sem trânsito. Para visitar Caneças e os pontos mais dispersos do município, um carro ou bicicleta facilitam a mobilidade. A ORIGEM DO NOME DA CIDADE DE ODIVELASUma Lenda RealAntes de sair da estação, vale a pena conhecer a origem do nome. Conta a lenda que D. Dinis tinha o hábito de se deslocar à noite a Odivelas. Certa noite, a rainha soube do que se passava, resolveu esperá-lo e quando o rei fazia o seu percurso, ela interpelou-o com as palavras: "Ide vê-las, senhor." Por evolução, a expressão "Ide vê-las" terá dado o nome a Odivelas. A lenda é, provavelmente, apócrifa — o nome aparece documentado desde 1190 e deriva de um topónimo muçulmano referente ao rio local. Mas é uma história que diz tudo sobre o carácter desta cidade: real, irreverente e muito mais antiga do que parece. UMA Manhã EM ODIVELAS: Sete Séculos de Pedra e AzulejoO MOSTEIRO DE ODIVELAS, O CORAÇÃO DA CIDADE O ponto de partida obrigatório é o Mosteiro de São Dinis e São Bernardo, no Largo D. Dinis, no centro histórico. A primeira pedra foi lançada pelo rei D. Dinis a 27 de Fevereiro de 1295, tendo a construção terminado em 1305. Classificado como Monumento Nacional desde 1910, este importante conjunto de arquitectura religiosa pertencia à Ordem de Cister. A fundação tem a sua própria lenda épica: conta-se que, por volta de 1295, D. Dinis, enquanto caçava nas florestas da região, foi surpreendido por um urso. Perante o perigo iminente, o monarca invocou São Dinis e São Luís, prometendo fundar um mosteiro caso escapasse com vida. Assim foi: com a coragem que a lenda lhe atribui, D. Dinis cravou um punhal no coração do animal e sobreviveu. Fiel ao voto, mandou construir o mosteiro naquela mesma região — e é aqui que está sepultado. Na chapel absidial do lado do Evangelho localiza-se o túmulo de D. Dinis, da primeira metade do século XIV, importante monumento da tumulária medieval portuguesa. Destaquem-se ainda a antiga cozinha e o refeitório, bem como os claustros originais quinhentistas — o Claustro da Moura, de dois andares, e o Claustro Novo, decorado com azulejos do século XVII. SABER MAIS: O QUE ACONTECEU NO MOSTEIRO DE ODIVELASO que torna o Mosteiro de Odivelas genuinamente extraordinário não é só a arquitectura. É o peso da história que aconteceu dentro dos seus muros. É no Mosteiro de Odivelas, em 1415, que D. Filipa de Lencastre, já no leito de morte, abençoa os três filhos mais velhos — D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique — que partem dali, a cavalo, em direcção ao Restelo, onde embarcam para Ceuta. A cena que deu início à era dos Descobrimentos aconteceu aqui. O mosteiro foi palco do Auto da Cananeia, de Gil Vicente, encomendado pela abadessa Violante Cabral, irmã de Pedro Álvares Cabral, para ali ser representado em 1534. O Padre António Vieira fez um dos seus sermões no Mosteiro de Odivelas, a 22 de Junho de 1668. Almeida Garrett dedicou ao Mosteiro um dos mais belos textos do romantismo português. Uma das ocupantes mais famosas foi a Madre Paula — freira que foi amante do rei D. João V e que, segundo a tradição local, passava os encontros com o monarca a fazer marmelada. Daí nasceu o doce mais famoso de Odivelas. O MEMORIAL DE ODIVELAS A poucos passos do Mosteiro, no centro histórico, encontra-se o Memorial de Odivelas. É um monumento gótico de origem incerta — há diversas teorias sobre o seu significado: poderá ter sido erguido para repouso do corpo de D. Dinis a caminho do túmulo no século XIV, ou para paragem do corpo de D. João I ao ser transportado de Lisboa para o Mosteiro da Batalha no século XV. Poderá ainda ter sido apenas um marco de delimitação do território do mosteiro ou um ponto de cobrança de impostos. O Memorial é encimado por uma cruz e ostenta o escudo português medieval. A incerteza da sua origem é, paradoxalmente, o que lhe confere maior fascínio. É um dos raros monumentos góticos de Portugal que existe em plena via pública, visível e acessível a qualquer hora, sem bilhete nem fila. O PADRÃO DO SENHOR ROUBADO A caminho do almoço, faça uma paragem no Padrão do Senhor Roubado. Trata-se de um monumento religioso datado de 1744. A sua construção deveu-se ao facto de terem sido encontradas neste local as relíquias roubadas da Igreja Matriz de Odivelas, em 1671. No monumento destaca-se um paredão forrado de azulejos monocromáticos. A 11 de Maio de 1671, um roubo na Igreja de Odivelas deu origem a este belo monumento, que alguns descrevem como sendo a primeira banda desenhada portuguesa — uma narrativa contada em azulejo, cena a cena, sobre a forte presença da Inquisição na região. Se a interpretação estiver correcta, Odivelas tem a mais antiga história em imagens sequenciais de Portugal. Motivo suficiente para parar e ler os azulejos com atenção. ALMOÇAR EM ODIVELAS: A MARMELADA BRANCAAntes de continuar o roteiro, a obrigação gastronómica é provar a Marmelada Branca de Odivelas. Trata-se de um produto típico que nasceu no Mosteiro de São Dinis e São Bernardo, distinguindo-se pela cor branca ou quase branca e pelo sabor mais intenso a fruta. Uma delícia conventual com indicação geográfica protegida. A ligação entre a marmelada e o Mosteiro é directa: a história do doce cruza-se com o famoso romance entre D. João V e Madre Paula, que ali passavam muito tempo "a fazer marmelada". É vendida em algumas padarias e lojas do centro histórico. Ao almoço, experimente a taberna ou restaurante que tiver mais movimento local — Odivelas ainda não entrou no circuito turístico, o que significa que os preços e a qualidade são os de sempre: honestos. Tarde EM ODIVELAS: Caneças e a Água que Fez LisboaAS FONTES DE CANEÇAS: QUANDO ODIVELAS ABASTECEU A CAPITAL A visita da tarde leva-o a Caneças, a alguns quilómetros do centro de Odivelas. Até meados do século XIX, Lisboa era uma cidade suja, afectada por numerosas epidemias. Os cidadãos ricos pagavam aos aguadeiros, entre os quais os de Caneças, para lhes levarem água a casa. Caneças e as suas águas eram muito apreciadas pela sua qualidade. A venda da água de Caneças fazia-se através de carroças ou galeras, que transportavam para Lisboa e arredores a água em bilhas de barro, juntamente com as trouxas de roupa das lavadeiras e produtos hortícolas. Na década de 1970 ainda se vendiam em Lisboa estas bilhas de água. A Fonte das Fontainhas é a mais antiga e a única de acesso público. Nos muros de acesso à fonte foram colocados nove painéis azulejares, da autoria de Eduarda Filhó, datados de 1999, com representações alusivas às profissões com maior relevância no período áureo das águas de Caneças: lavadeira, aguadeiro e enchedeira. É um documento social e económico em azulejo que conta uma história que Lisboa raramente reconhece: a de que a sua água, durante séculos, vinha de Odivelas. ANTA DAS PEDRAS GRANDES: 5000 ANOS DE SILÊNCIO A visita ao município mais antigo que qualquer rei ou mosteiro é a Anta das Pedras Grandes. Classificada como Monumento Nacional em 1944, a Anta das Pedras Grandes é um sepulcro característico do período Neolítico, cerca de 3500 a 3000 anos antes da nossa era. Trata-se de uma anta com câmara formada por sete esteios e um pequeno corredor voltado a sudoeste. A anta de Pedras Grandes é o edifício mais antigo de Odivelas, com cerca de 5000 anos de idade. Foi apresentada à comunidade científica no século XIX pelo arqueólogo Carlos Ribeiro. Está num local discreto, sem sinalização excessiva e sem multidões. Chegar lá é um acto de descoberta. O MOINHO DA LAUREANA Para terminar o dia, o Moinho da Laureana, em Famões, é uma paragem de beleza tranquila. O Moinho da Laureana é de tutela municipal e foi recuperado em 2001. As primeiras referências a este exemplar datam de 1763. É um moinho característico do Sul de Portugal, do tipo fixo de torre cilíndrica em alvenaria, com capelo amovível por sarilho interior. As visitas ao interior são feitas com marcação prévia. Mesmo sem entrar, o moinho é um elemento paisagístico notável — branco, compacto, sobre uma encosta com vistas largas sobre o município. É o tipo de sítio que se fotografa e que fica na memória exatamente por não ter nada que o torne óbvio: apenas a dignidade de ter resistido ao tempo. Dicas Práticas para Visitar OdivelasO metro é de longe o meio de transporte mais prático para o centro histórico. Para Caneças, é necessário autocarro ou carro próprio — a distância a pé do metro é longa para quem quer ver vários sítios. O Festival da Marmelada Branca de Odivelas acontece no Largo D. Dinis no último fim-de-semana de Setembro — altura ideal para visitar o município e provar o produto rainha. O Mosteiro de Odivelas está em fase de requalificação e as condições de visita variam — consulte o site da Câmara Municipal de Odivelas antes de ir (cm-odivelas.pt) ou contacte o Serviço Educativo pelo +351 219 320 812. As visitas orientadas ao Mosteiro são disponibilizadas regularmente para grupos e escolas e podem ser solicitadas com antecedência. Um dia completo é suficiente para o roteiro descrito — comece cedo e termine em Caneças ao fim da tarde. Porque Odivelas Merece Estar no MapaA presença humana no território de Odivelas remonta ao Neolítico — a anta das Pedras Grandes, o dólmen das Batalhas em Caneças, o Castro da Amoreira na Ramada, os vestígios romanos na Póvoa de Santo Adrião e os achados árabes na Pontinha confirmam o território como uma zona fértil e agradável onde, ao longo dos séculos, atesta a vivência humana na região. E ainda: é na Pontinha que, a 25 de Abril de 1974, se instala o Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas que instaurará um regime democrático em Portugal. Odivelas está no início e no fim de muitas das histórias que definem Portugal. Está no nascimento do país — com D. Dinis. Está no início dos Descobrimentos — com D. Filipa de Lencastre. Está na conquista da democracia — com o 25 de Abril. Está, também, na origem da água de Lisboa — com os aguadeiros de Caneças. Qualquer outra cidade com esta biografia estaria cheia de turistas. Em Odivelas, ainda se chega a tempo de andar sozinho pelos mesmos lugares onde tudo isto aconteceu. |
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