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Puerto Natales é hoje conhecida como a grande porta de entrada para Torres del Paine, mas a sua história começou muito antes dos caminhantes, hotéis e expedições pela Patagónia. Sabe mais no Blog dos Portugueses em Viagem Esta pequena cidade chilena nasceu junto às águas do Fiorde Última Esperanza, num território ocupado durante milhares de anos por povos indígenas e posteriormente transformado pela exploração europeia, pelas disputas fronteiriças e pela criação de uma poderosa indústria de carne e lã. Foi cidade de trabalhadores, porto de exportação e cenário de conflitos sociais. Só muito mais tarde o turismo alterou a sua economia e a sua relação com a paisagem. Na Expedição 100% Patagónia dos Portugueses em Viagem, Puerto Natales é uma das etapas fundamentais do nosso percurso entre a Argentina e o Chile. Conhecer a sua história ajuda a compreender que esta cidade é muito mais do que uma escala a caminho de Torres del Paine. É um dos lugares onde melhor se pode ler a história económica, humana e social da Patagónia austral. Muito antes de existir Puerto Natales, este território já tinha habitantes. O Museu Histórico de Puerto Natales situa os primeiros vestígios humanos da região há cerca de 14 mil anos e dedica parte da sua exposição aos dois povos indígenas historicamente associados ao território de Última Esperanza: os Aónikenk e os Kawésqar. Os Aónikenk estavam ligados às grandes extensões terrestres da Patagónia. Os Kawésqar desenvolveram uma cultura marítima adaptada aos canais, ilhas e fiordes do Pacífico austral. Esta distinção é importante. Quando hoje observamos Puerto Natales rodeada por montanhas, água e estepe, estamos perante um território que permitiu modos de vida muito diferentes. A história da cidade não deve, portanto, começar com a sua fundação oficial em 1911. Essa data assinala a criação administrativa de uma povoação chilena. A presença humana na região é milhares de anos mais antiga. A chegada dos europeus introduziu uma nova forma de olhar para este labirinto de canais patagónicos. Durante o século XVI, navegadores espanhóis procuraram passagens que permitissem compreender melhor a geografia situada a oeste do Estreito de Magalhães. O nome Última Esperanza ficou associado às explorações de Juan Ladrillero, que percorreu os canais austrais em 1557 e 1558 procurando uma ligação marítima ao estreito. Nos séculos seguintes sucederam-se viagens de reconhecimento, levantamentos hidrográficos e expedições científicas. Contudo, durante muito tempo, a região permaneceu afastada dos principais centros de povoamento colonial. A geografia explica parte desse isolamento. Fiordes profundos, cordilheiras, campos de gelo, ventos fortes e longas distâncias tornavam as comunicações complexas. O território que hoje atrai viajantes de todo o mundo pela sua natureza espectacular representava então um enorme desafio logístico. A transformação decisiva começou no final do século XIX, quando a criação de ovinos avançou pela Patagónia austral. A Biblioteca Nacional do Chile situa o início da colonização económica de Última Esperanza na década de 1890, impulsionada sobretudo por colonos de origem alemã e britânica que criaram estâncias em terrenos arrendados ao Estado chileno. Entre os nomes associados a esta fase encontra-se o alemão Hermann Eberhard, instalado na região em 1893. Fontes patrimoniais chilenas registam que Eberhard participou, juntamente com Otto Nordenskjöld, em trabalhos de reconhecimento e levantamento da área e foi um dos primeiros colonos europeus a estabelecer-se de forma permanente em Última Esperanza. As extensas pastagens patagónicas revelaram-se adequadas à pecuária ovina. Em poucos anos surgiram estâncias, caminhos, instalações portuárias e uma economia orientada para a exportação de lã e carne. A paisagem começava a ser reorganizada de acordo com as necessidades de uma indústria que ligava este extremo da América do Sul aos mercados internacionais. Neste processo emergiu uma empresa que marcaria profundamente a história regional: a Sociedad Explotadora de Tierra del Fuego. Criada no final do século XIX, tornou-se uma das grandes forças económicas da Patagónia austral. A sua expansão foi extraordinária. Segundo a Biblioteca Nacional do Chile, depois da venda de terrenos iniciada entre 1905 e 1906 e da aquisição de propriedades de outros colonos, a companhia passou a controlar grande parte de Última Esperanza. Em 1910, considerando as suas propriedades e terrenos arrendados em toda a região, controlava cerca de três milhões de hectares, equivalentes a quase três quartos da área pecuária de Magallanes. Estâncias como Cerro Castillo, Cerro Guido e outras propriedades da região integraram este novo sistema produtivo. A lã e a carne produzidas na Patagónia entravam numa cadeia comercial internacional. O território remoto começava a fazer parte da economia industrial global. Foi neste contexto que nasceu oficialmente Puerto Natales. A cidade foi fundada por decreto em 31 de Maio de 1911, durante a presidência de Ramón Barros Luco. O documento determinava a criação da povoação de Puerto Natales na desembocadura do rio Natales, então pertencente ao Território de Magallanes. A data e o acto de fundação são confirmados tanto por documentação do Ministério das Culturas do Chile como por registos históricos parlamentares. A criação da cidade respondia a uma necessidade concreta. A actividade pecuária estava a aumentar, a população crescia e eram necessárias infra-estruturas, comércio, serviços públicos e um porto capaz de apoiar a economia regional. Puerto Natales nasceu, assim, estreitamente ligada ao trabalho. Não foi inicialmente concebida como destino turístico. Era uma cidade necessária para servir uma região pecuária em rápida transformação. Poucos lugares contam melhor esta história do que Puerto Bories, a cerca de cinco quilómetros de Puerto Natales. Ali foi instalado um enorme complexo industrial destinado ao processamento dos produtos provenientes das estâncias. Segundo o Conselho de Monumentos Nacionais do Chile, o antigo Frigorífico Bories começou a ser construído em 1906 e entrou em funcionamento na década seguinte. A arquitectura e a maquinaria reflectiam técnicas industriais britânicas do período pós-vitoriano. A dimensão da operação impressiona ainda hoje: centenas de trabalhadores deslocavam-se diariamente desde Puerto Natales e as instalações tinham capacidade para processar milhares de ovinos. Existiam áreas destinadas à carne, peles, gordura, reparação de máquinas, produção de energia e embarque. Um cais com cerca de 158 metros permitia ligar directamente a fábrica às rotas marítimas. A carne congelada e outros produtos podiam então seguir para mercados distantes. Naquele início do século XX, uma cidade minúscula da Patagónia estava ligada, através do comércio marítimo, aos centros de consumo do outro lado do Atlântico. A indústria também mudou a população de Puerto Natales. A procura de mão-de-obra atraiu trabalhadores de outras partes do Chile, com especial importância para a migração proveniente do arquipélago de Chiloé. A Biblioteca Nacional descreve Puerto Natales como uma cidade que adquiriu uma forte identidade operária devido à chegada destes trabalhadores, empregados nas fábricas e nas estâncias da Sociedad Explotadora de Tierra del Fuego. Também chegaram imigrantes europeus, entre eles britânicos e croatas, contribuindo para a diversidade cultural que continua associada à região de Magallanes. Para transportar pessoas e mercadorias foi construída uma linha ferroviária entre Puerto Natales e Puerto Bories. O comboio tornou-se parte do quotidiano industrial. A cidade crescia ao ritmo dos turnos de trabalho, dos navios, das estâncias e dos animais que alimentavam uma economia dependente dos mercados externos. Esse crescimento teve também uma história de conflito social. As condições de trabalho e a enorme concentração económica produziram tensões entre trabalhadores e empresas. Em 1919, Puerto Natales e Puerto Bories foram palco de um importante conflito laboral ligado ao movimento operário de Magallanes. A Biblioteca Nacional do Chile regista o levantamento operário de Puerto Bories e Puerto Natales e a greve geral desse ano, ambos violentamente reprimidos. Este episódio é fundamental para compreender a cidade. A história de Puerto Natales não é apenas a história dos pioneiros, das estâncias e da expansão económica. É também a história dos trabalhadores que fizeram funcionar frigoríficos, portos, oficinas, comboios e explorações pecuárias. Nas décadas seguintes, a queda dos preços da lã e mudanças económicas na região provocaram períodos de estagnação. O modelo que tinha criado a cidade começou gradualmente a perder a importância que tivera nas primeiras décadas do século XX. O antigo Frigorífico Bories acabaria por encerrar e as suas instalações, pela relevância arquitectónica e histórica, foram classificadas como Monumento Histórico Nacional em 1996. A Puerto Natales contemporânea reinventou a relação com o território. A antiga cidade operária e pecuária tornou-se um dos principais centros turísticos da Patagónia chilena e a base mais conhecida para quem segue em direcção ao Parque Nacional Torres del Paine. Contudo, basta caminhar com atenção pelas ruas, visitar o Museo Histórico Municipal de Puerto Natales ou seguir até às antigas instalações industriais de Puerto Bories para perceber que existe outra cidade por baixo da imagem turística. O museu local preserva uma narrativa que começa há cerca de 14 mil anos, passa pelos Aónikenk e Kawésqar e acompanha depois os pioneiros e a formação da cidade operária e pecuária a partir de 1911. É precisamente esta sucessão de histórias que torna Puerto Natales tão interessante na nossa Expedição 100% Patagónia dos Portugueses em Viagem. Aqui encontramos povos indígenas, exploradores, criadores de gado, imigrantes,trabalhadores, conflitos laborais e património industrial antes de seguirmos para algumas das paisagens mais conhecidas da Patagónia. Puerto Natales nasceu do mar e da estepe, cresceu com as ovelhas e as fábricas e encontrou no turismo uma nova etapa da sua história. Torres del Paine pode ser a razão que leva muitos viajantes até aqui. A história explica porque vale a pena ficar e conhecer a cidade. marca a tua aventuraLER MAIS VIAGENS NA AMERICA DO SUL VIAJAR NO CHILE PATAGÓNIA 100% OS GLACIARES DA PATAGÓNIA GUIA COMPLETO DE TORRES DEL PAINE NOVAS REGRAS DE ACESSO A TORRES DEL PAINE DA PATAGÓNIA AO DESERTO DO ATACAMA OS MAIORES MUSEUS DA AMÉRICA LATINA AS CASAS DE PABLO NERUDAITINERÁRIO PINOCHET O ÚLTIMO VOO DO HOMEM-PÁSSARO O QUE VISITAR NA ILHA DA PÁSCOA GASTRONOMIA NO ATACAMA CULTURA E HISTÓRIA DE SAN PEDRO DO ATACAMA O DESERTO ONDE NÃO CHOVE HÁ 400 ANOS FOTOGRAFIA NO ATACAMA O DESERTO DO ATACAMA DESCOBRE A MAGIA DO DESERTO DO ATACAMAEXPEDIÇÕES AOS DESERTOS MAIS BELOS DO MUNDO AS TERMAS DE POLQUES NA BOLÍVIA OS MELHORES DESTINOS DE TREKKING DO MUNDO VIAGENS QUE REFRESCAM |
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