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No extremo sudoeste da Bolívia onde as lagoas podem ser vermelhas, verdes ou brancas, milhares de flamingos caminham sobre águas salgadas, a terra expele vapor e lama fervente e vulcões quase perfeitos recortam um dos céus mais límpidos dos Andes. Sabe mais no Blog dos Portugueses em Viagem. A Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa, no Sud Lípez, departamento de Potosí, junto às fronteiras do Chile e da Argentina é um território remoto, árido e elevado, onde grande parte da viagem decorre acima dos 4000 metros. O frio, o vento, a altitude e a ausência de grandes povoações definem a experiência. Mas reduzir Eduardo Avaroa às suas paisagens seria perder grande parte da história. A Reserva resulta de milhões de anos de vulcanismo, alterações climáticas, lagos desaparecidos e actividade hidrotermal. É também terra de flamingos, vicunhas, vizcachas e comunidades andinas adaptadas a condições ambientais exigentes. Para quem acompanha o Blog dos Portugueses em Viagem, esta é uma daquelas regiões que explicam por que continuamos a procurar destinos afastados das rotas convencionais. E é precisamente esse espírito que levamos para as nossas expedições: compreender a geologia, a cultura e as pessoas antes de simplesmente fotografar a paisagem. A história oficial da reserva começou em 1973, quando o Governo boliviano criou a Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa na província de Sud Lípez. A área inicial abrangia a Laguna Colorada e uma faixa com dez quilómetros de raio à sua volta, tendo como objectivo fundamental proteger a fauna e proibir a caça comercial e desportiva. A reserva seria posteriormente ampliada, acompanhando uma crescente percepção da importância ecológica do conjunto de lagoas, desertos, vulcões e zonas húmidas do sudoeste boliviano. O nome presta homenagem a Eduardo Avaroa, figura boliviana da Guerra do Pacífico, morto em 1879 durante a Batalha de Topáter, em território actualmente chileno. Mas a história humana desta região é muito anterior à formação das repúblicas sul-americanas. O Sud Lípez pertence a uma antiga paisagem cultural andina. Comunidades indígenas desenvolveram durante séculos estratégias de sobrevivência baseadas na pastorícia, circulação entre diferentes pisos ecológicos, aproveitamento de zonas húmidas e intercâmbio entre o Altiplano, os vales e o actual norte chileno. A arqueologia regional demonstra que estas terras aparentemente vazias foram atravessadas, utilizadas e culturalmente apropriadas muito antes da chegada dos espanhóis. É impossível compreender a Reserva Eduardo Avaroa sem começar pela geologia. Estamos no Altiplano-Puna, uma das grandes províncias vulcânicas dos Andes Centrais. A paisagem está directamente relacionada com a subducção da placa de Nazca sob a placa Sul-Americana, processo tectónico responsável pelo levantamento dos Andes e por uma intensa actividade magmática. Vulcões, caldeiras, depósitos de cinzas, lavas, ignimbritos e sistemas hidrotermais contam diferentes capítulos dessa evolução. Debaixo desta paisagem existe ainda hoje uma importante anomalia térmica. Estudos geofísicos realizados no campo geotérmico Laguna Colorada–Sol de Mañana identificaram um reservatório hidrotermal de alta temperatura sob uma camada superficial menos permeável. A região encontra-se na margem do chamado Altiplano-Puna Magma Body, uma gigantesca zona parcialmente fundida existente na crosta sob esta parte dos Andes. Por isso, quando vemos vapor a sair do solo em Sol de Mañana, não estamos perante um cenário artificial nem perante vulcanismo extinto transformado em atracção turística. Estamos a observar manifestações superficiais de um sistema geotérmico activo. Uma das demonstrações mais espectaculares dessa energia encontra-se em Sol de Mañana, a cerca de 4900 metros de altitude. O nome pode sugerir poesia, mas a paisagem é visceral. Fumarolas libertam colunas de vapor. Poças de lama borbulham. O cheiro a enxofre invade o ar. O terreno apresenta tons amarelos, cinzentos, avermelhados e castanhos produzidos pela alteração hidrotermal e pelos minerais. Não existem as barreiras de segurança que encontramos em muitos parques geotérmicos europeus ou norte-americanos, pelo que sair dos percursos utilizados pelos guias pode ser perigoso. Debaixo da superfície encontram-se fluidos muito quentes e zonas de terreno instável. Sol de Mañana tem também interesse científico e energético. A Bolívia estuda há décadas o potencial geotérmico da região e investigações modernas confirmam a existência de um sistema de alta entalpia. Aqui, a geologia não pertence apenas ao passado: continua activa sob os pés de quem atravessa o planalto. A Laguna Colorada é o grande símbolo da reserva. Situada a aproximadamente 4300 metros de altitude, é uma lagoa pouco profunda cuja extraordinária tonalidade avermelhada resulta da combinação de sedimentos, salinidade e microrganismos, incluindo algas capazes de prosperar nestas águas extremas. O contraste visual é impressionante. Águas vermelhas encontram depósitos esbranquiçados de sais, montanhas ocres e um céu de altitude profundamente azul. Mas a verdadeira importância da Laguna Colorada é biológica. É um dos lugares fundamentais para os flamingos dos Andes e constitui o principal local de nidificação conhecido do flamingo-de-James em toda a sua área de distribuição. A região de Los Lípez concentra ainda parcelas muito significativas das populações globais de flamingo-andino e flamingo-de-James. Flamingos alimentam-se nos ambientes salinos ricos em diatomáceas e outros microrganismos, transformando estas lagoas aparentemente hostis em verdadeiras cantinas de altitude. A Laguna Colorada foi reconhecida como zona húmida de importância internacional pela Convenção de Ramsar. No extremo sudoeste da reserva, quase encostada ao Chile, aparece outra das imagens emblemáticas da Bolívia: a Laguna Verde diante do vulcão Licancabur. A lagoa encontra-se a cerca de 4310 metros e ocupa uma bacia endorreica, isto é, sem drenagem para o oceano. As suas tonalidades entre turquesa e verde-esmeralda estão relacionadas com sedimentos e elevada concentração de minerais, cuja suspensão pode ser intensificada pelo vento. A geologia revela ainda uma história climática surpreendente. Investigações mostram que Laguna Verde e a vizinha Laguna Blanca chegaram a formar um único corpo de água no final do Pleistoceno. Antigas linhas de costa registam níveis muito superiores aos actuais, testemunhando períodos em que o clima dos Andes Centrais era diferente. Atrás das lagoas ergue-se o Licancabur, um estratovulcão de quase 6000 metros, formado principalmente por lavas andesíticas e basáltico-andesíticas. O seu cone quase geométrico tornou-se uma referência visual de toda a região. O Licancabur acrescenta uma dimensão etnológica e arqueológica à paisagem. Para as populações andinas pré-hispânicas, as montanhas não eram meros acidentes geográficos. Muitos cumes possuíam carácter sagrado e estavam integrados em sistemas religiosos que relacionavam comunidades, água, fertilidade, antepassados e forças sobrenaturais. No cume do Licancabur foram identificados vestígios arqueológicos associados à utilização ritual da montanha. O próprio nome tem origem na língua kunza, falada historicamente pelos povos atacamenhos ou Lickanantay do actual norte do Chile e áreas vizinhas. A viagem pela reserva continua pelo Deserto de Siloli, uma extensão árida de altitude marcada pelo vento e por extraordinárias formações rochosas. A mais conhecida é o Árbol de Piedra, uma massa de rocha vulcânica cuja base estreita e parte superior larga lembram a copa e o tronco de uma árvore. A forma resulta de longos processos de erosão diferencial, durante os quais partículas transportadas pelo vento actuaram sobre materiais vulcânicos com resistências distintas. É tentador imaginar estas estruturas como esculturas instantâneas produzidas por algum episódio geológico dramático. A realidade é mais lenta e interessante. Vulcanismo criou a matéria-prima; fracturação, variações térmicas, gelo, vento e erosão foram progressivamente transformando-a. É uma paisagem construída pelo tempo. Nas proximidades existem outras formações fantásticas que demonstram como o clima hiperárido do Altiplano preserva e esculpe depósitos vulcânicos durante períodos enormes. Apesar da aparência desértica, Eduardo Avaroa possui uma fauna altamente especializada. Além dos três flamingos sul-americanos encontrados na região (flamingo-andino, flamingo-de-James e flamingo-chileno) existem vicunhas, vizcachas, raposas-andinas e numerosas aves adaptadas aos ambientes de altitude.alberga também espécies ameaçadas como o gato-andino, um dos felinos mais raros da América do Sul, e o suri ou nandu-andino. Os bofedales, zonas húmidas de altitude alimentadas por águas subterrâneas, degelo e pequenos cursos de água, são essenciais para esta biodiversidade. Funcionam como ilhas verdes num território dominado pela aridez e oferecem alimento a camelídeos selvagens e domésticos. A vegetação inclui gramíneas resistentes, plantas em almofada e arbustos capazes de sobreviver à forte radiação ultravioleta, temperaturas negativas, pouca precipitação e grandes oscilações térmicas. Esta aparente austeridade esconde um ecossistema complexo e extremamente vulnerável a alterações no regime da água. A etnologia ajuda-nos também a desmontar a ideia de um “deserto vazio”. As comunidades rurais da região pertencem a um universo cultural andino moldado por séculos de adaptação à altitude. A criação de lamas foi historicamente essencial. Estes animais forneciam lã, carne, combustível através dos excrementos secos e, sobretudo, transporte. As caravanas permitiam trocar produtos entre diferentes regiões ecológicas. Sal, minerais, tecidos e produtos agrícolas circulavam através de redes que ligavam o Altiplano aos vales e ao Pacífico. A conquista espanhola e a mineração de Potosí alteraram profundamente estas economias, mas não eliminaram a mobilidade tradicional nem as identidades comunitárias. A Reserva Eduardo Avaroa recebe visitantes provenientes sobretudo dos circuitos de Uyuni e do norte do Chile, criando oportunidades económicas, mas também pressões ambientais e sociais. Eduardo Avaroa é um dos lugares essenciais numa viagem à Bolívia onde geologia, biodiversidade, arqueologia e cultura andina contam, juntas, a história de um dos territórios mais extremos da América do Sul. MARCA A TUA AVENTURA NA BOLÍVIA |
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