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O Salar de Uyuni obriga-nos a compreender a própria história da Terra. No sudoeste da Bolívia, a mais de 3600 metros de altitude, uma planície branca prolonga-se até desaparecer no horizonte. Na estação seca, o solo transforma-se num mosaico de polígonos de sal. Quando chegam as chuvas, uma película de água cobre parte da superfície e cria o célebre efeito de espelho, apagando visualmente a fronteira entre céu e terra. Sabe mais no Blog dos Portugueses em Viagem. É o maior salar do planeta, com mais de 10 000 km², instalado numa bacia fechada do Altiplano que guarda os vestígios de antigos lagos pleistocénicos. Sob a crosta existe salmoura rica em lítio, potássio, magnésio e outros elementos. À superfície aparecem antigas ilhas, vulcões, cactos gigantes, comunidades que vivem da extracção do sal e lugares onde a geologia se cruza com narrativas Aymara e Quechua. É precisamente esta dimensão que torna a travessia do Salar de Uyuni uma das experiências centrais das expedições dos Portugueses em Viagem, tanto no percurso entre a Bolívia e o Atacama como na grande viagem que liga Amazónia, Peru, Bolívia e Chile. Para perceber verdadeiramente Uyuni é preciso sair da fotografia clássica e descobrir Colchani, os montes de sal, os olhos do salar, a imensidão branca, Isla Incahuasi, o vulcão Tunupa, Coquesa e o Cemitério de Comboios. Cada lugar conta uma parte diferente da mesma história. como nasceu o Salar de UyuniO Altiplano boliviano é uma enorme bacia interior situada entre as cordilheiras Ocidental e Oriental dos Andes. O seu desenvolvimento está relacionado com a elevação da cadeia andina e com uma característica essencial para explicar Uyuni: grande parte da água que chega a esta região não consegue alcançar o oceano. Estamos perante um sistema hidrográfico fechado. Durante o Pleistoceno, mudanças climáticas permitiram que grandes lagos ocupassem extensas áreas do Altiplano. O actual Salar de Uyuni é o resultado final de sucessivos ciclos de enchimento, concentração e evaporação de antigos lagos do Altiplano. Encontraram-se terraços e depósitos carbonatados dezenas de metros acima do salar actual, testemunhando níveis de água muito superiores aos modernos. À medida que o clima se tornou mais seco e a água evaporou, os sais dissolvidos ficaram para trás. Minerais menos solúveis precipitaram primeiro; a concentração continuada levou posteriormente à precipitação de halite, o cloreto de sódio que constitui o sal comum. Uyuni ocupa ainda uma posição particularmente baixa dentro deste antigo sistema lacustre. O resultado acumulado durante milhares de anos foi uma extensa crosta salina sobre sedimentos e salmouras subterrâneas. Essa crosta muito porosa pode atingir vários metros de espessura em determinados sectores. É sobre esta extraordinária memória mineral de antigos lagos que hoje circulam os 4x4. COLCHANIA cerca de 20 quilómetros de Uyuni encontra-se Colchani, normalmente uma das primeiras paragens de qualquer travessia. É uma pequena povoação rodeada por bancas de artesanato. Gerações de habitantes da região trabalharam na extracção e processamento do sal. Tradicionalmente, o sal era recolhido manualmente, seco e transportado, utilizando-se também animais de carga. Ainda hoje é possível observar técnicas de processamento e pequenos ateliers onde o mineral é transformado em blocos, objectos decorativos e peças artesanais. A cultura da região está marcada por tradições andinas Aymara e Quechua e por uma relação com a Pachamama, uma entidade fundamental das cosmologias andinas associada à terra, fertilidade, espaço e ciclos da vida. Fontes locais descrevem práticas de respeito e oferenda à Pachamama associadas também ao trabalho no salar. MONTES DE SAL E OS POLÍGONOSPouco depois de entrar no salar começam a surgir pequenas acumulações cónicas de sal. São os conhecidos montes de sal, tradicionalmente associados à recolha e secagem do mineral antes do seu transporte. Mas a verdadeira maravilha encontra-se debaixo dos nossos pés. Durante a estação seca, grandes sectores da superfície apresentam uma rede quase perfeita de polígonos que resultam de processos físicos ligados à evaporação, cristalização, variações de humidade e dinâmica da crosta salina. A água salgada existente nos poros aproxima-se da superfície; a intensa evaporação concentra os sais; estes cristalizam e reorganizam a crosta. O processo repetido contribui para criar os padrões geométricos que caracterizam Uyuni. Por baixo desta superfície aparentemente sólida existe um sistema muito mais complexo, uma grande massa de salmoura rica em diferentes elementos químicos. É precisamente essa salmoura que contém um dos recursos que transformou Uyuni num lugar de importância estratégica mundial: lítio. Investigações geológicas associam a sua concentração ao funcionamento prolongado de uma bacia fechada, à evaporação e à presença de materiais vulcânicos e sistemas hidrotermais capazes de fornecer elementos químicos às águas. O INTERIOR DO SALARHá um momento em que Colchani desaparece, as montanhas ficam distantes e o horizonte parece deixar de oferecer qualquer referência de escala. É aqui que Uyuni se torna verdadeiramente extraordinário. Durante a época seca predomina a crosta branca, dura e geométrica. Na época das chuvas, sobretudo quando existe uma fina camada de água e pouco vento, a superfície transforma-se num enorme espelho. Não é necessário qualquer fenómeno misterioso para o explicar: a extraordinária planura do salar permite que poucos centímetros de água formem uma superfície reflectora contínua durante quilómetros. O efeito visual é desconcertante. Nuvens, montanhas e pessoas aparecem duplicadas. O horizonte pode tornar-se quase impossível de identificar. Esta diferença sazonal significa que existem praticamente dois Salares de Uyuni. Entre aproximadamente Maio e Outubro, predominam céu limpo, sal seco e excelentes condições para atravessar grandes extensões. Durante o Verão austral, a chuva pode produzir o desejado efeito de espelho, mas também impedir o acesso a determinadas áreas. Não existe, portanto, uma única “melhor época”. OS OJOS DEL SALAREntre as paragens mais curiosas encontram-se pequenas aberturas onde a água salgada emerge ou permanece visível entre blocos de sal, habitualmente conhecidas pelos operadores turísticos como Ojos del Salar. O interesse principal está na possibilidade de observar directamente a salmoura que existe sob a superfície. O salar não é simplesmente uma placa compacta de sal colocada sobre terra seca. A crosta é porosa e encontra-se associada a um enorme sistema de salmouras subterrâneas. Estas águas apresentam concentrações elevadas de cloreto e quantidades significativas de lítio, potássio e magnésio. A água chega à bacia através de precipitação, cursos de água periféricos e circulação subterrânea, transportando elementos dissolvidos das rochas circundantes. Como a bacia não possui uma saída normal para o mar, a evaporação retira água mas deixa grande parte dos minerais. Repetido durante períodos geológicos prolongados, este mecanismo funciona como um gigantesco sistema natural de concentração química. É também aqui que importa respeitar escrupulosamente as indicações dos guias. A aparência uniforme do salar pode enganar e algumas zonas apresentam crostas frágeis, água ou lama por baixo. Uyuni não deve ser atravessado fora das rotas conhecidas apenas porque a superfície parece plana. ISLA INCAHUASINo centro da extensão branca surge uma massa escura de rocha. A Isla Incahuasi é uma das imagens essenciais de Uyuni. O seu nome deriva do Quechua: Inka wasi, “casa do Inca”. Quando os grandes lagos pleistocénicos cobriam esta região, as elevações rochosas formavam verdadeiras ilhas. Hoje encontram-se rodeadas por sal. Incahuasi apresenta ainda estruturas carbonatadas associadas ao antigo ambiente lacustre, frequentemente descritas aos visitantes como formações semelhantes a coral. Mas aquilo que domina imediatamente a paisagem são os enormes cactos colunares, alguns com vários metros de altura. A subida pelo trilho permite ganhar altitude suficiente para compreender finalmente a escala do salar. De cima, os veículos tornam-se pequenos pontos sobre uma superfície branca aparentemente interminável. A ilha teve também importância prática para populações que atravessavam o salar, funcionando como referência e local de abrigo numa paisagem onde quase não existem elementos de orientação. Para quem dispõe apenas de um dia no salar, Incahuasi está entre as visitas que mais justificam o percurso. VULCÃO TUNUPANo limite norte do salar ergue-se uma montanha de vertentes vermelhas, ocres e amareladas: o Tunupa. A sua existência pertence à história vulcânica dos Andes, resultado último da subducção da placa de Nazca sob a placa Sul-Americana e do vulcanismo que caracteriza a margem ocidental do continente. A erosão e alteração dos minerais expostos contribuem para as tonalidades que distinguem as suas vertentes. Tunupa é uma personagem fundamental de diferentes tradições orais do Altiplano. Numa delas, Tunupa aparece como uma mulher disputada pelos vulcões Sajama e Sabaya. Noutra o salar nasce do leite de Tunupa. Outros ciclos míticos apresentam Tunupa como uma divindade masculina associada ao raio, ao fogo e às águas do grande espaço andino. COQUESA E AS MÚMIASNa base de Tunupa encontra-se Coquesa, pequena comunidade a partir da qual se realizam percursos pela encosta. Numa gruta da montanha conservam-se restos humanos pré-colombianos, conhecidos habitualmente como Múmias de Coquesa. As referências disponíveis situam-nos aproximadamente em torno do século XIII. Os corpos conservaram cabelo, tecidos e outros materiais devido às condições extremamente secas da região. Os habitantes de Coquesa mantêm práticas de respeito e oferenda junto dos restos humanos. A visita exige, por isso, contenção. Estamos perante restos de pessoas reais e património de uma comunidade, não acessórios fotográficos. Coquesa oferece ainda algumas das melhores perspectivas sobre o Salar de Uyuni, sobretudo quando a água transforma a planície num espelho onde Tunupa aparece reflectido. o lítio no salar de uyuniDebaixo da crosta encontra-se uma enorme quantidade de salmoura rica em lítio. O interesse económico é evidente porque o lítio é fundamental para muitas baterias recarregáveis utilizadas em electrónica, armazenamento energético e veículos eléctricos. Mas a questão é também ambiental e social. Extrair minerais num sistema hídrico extremamente árido obrigaria a compreender com precisão a circulação da água e das salmouras e os possíveis impactos sobre comunidades e ecossistemas. A pressão internacional é extremamente forte, mas até agora a resistência das comunidades locais tem sido exemplar, organizada e forte. O CEMITÉRIO DE COMBOIOSA poucos quilómetros da cidade de Uyuni encontra-se uma paisagem completamente diferente. Dezenas de locomotivas e carruagens enferrujadas repousam sobre o Altiplano. O Cementerio de Trenes está ligado ao desenvolvimento ferroviário boliviano do final do século XIX, quando Uyuni se tornou um importante nó de transporte associado à mineração. A primeira grande ligação ferroviária boliviana foi construída para facilitar o transporte de minerais entre o interior e a costa do Pacífico, e Uyuni assumiu um papel estratégico nessa rede. Fontes históricas sobre o local registam a chegada de um comboio a Uyuni em Novembro de 1890, durante a expansão ferroviária impulsionada pelo governo de Aniceto Arce. A decadência de parte da actividade mineira e a modernização dos transportes deixaram equipamento obsoleto abandonado junto à cidade. O clima árido atrasou parte da corrosão e criou aquilo que hoje parece um cenário pós-industrial. Esta paragem não pertence à formação natural do salar, mas ajuda a compreender outra camada da história regional: durante séculos, o Altiplano forneceu minerais para mercados muito distantes. A ferrovia foi uma das infraestruturas que ligou essa riqueza subterrânea à economia mundial. hotel de salOutra das curiosidades de Uyuni são as construções feitas parcialmente com blocos de sal. A ideia parece concebida para turistas, mas parte de uma lógica elementar: numa região onde a madeira é limitada e o sal existe em quantidades gigantescas, o próprio território fornece material de construção. Blocos cortados da crosta foram utilizados em edifícios e mobiliário associado à actividade turística. Alguns hotéis próximos do salar transformaram esta técnica numa imagem de marca. Convém, contudo, distinguir as construções efectivamente feitas com blocos de sal das descrições promocionais que sugerem edifícios integralmente constituídos pelo mineral. O interesse está sobretudo na relação entre matéria-prima e arquitectura. O mesmo cloreto de sódio que forma o horizonte pode tornar-se parede, mesa ou banco. Esta utilização contemporânea acrescenta uma nova fase à longa relação económica das comunidades locais com o sal. O PÔR DO SOLSe houver uma experiência que não deve ser sacrificada para acrescentar mais uma paragem ao roteiro, é permanecer no salar até a luz começar a desaparecer. Durante a estação seca, o branco ganha progressivamente tonalidades douradas, rosadas e azuladas. Com uma fina camada de água, o espectáculo torna-se ainda mais intenso porque cada mudança do céu aparece duplicada na superfície. Aqui percebe-se também por que motivo a ausência de referências visuais torna Uyuni tão fotogénico. Sem árvores, edifícios ou objectos próximos, o cérebro perde parte da percepção normal da distância. É daí que nascem as célebres fotografias de perspectiva forçada em que uma pessoa parece segurar outra na palma da mão ou um pequeno objecto assume dimensões gigantescas. Mas a melhor imagem pode ser muito mais simples: esperar. À medida que o Sol se aproxima do horizonte, as sombras alongam-se sobre uma superfície praticamente plana. Pouco depois chega o frio. Estamos acima dos 3600 metros e a temperatura cai rapidamente quando desaparece a radiação solar. A NOITE NO SALARQuem realiza uma travessia de vários dias tem a possibilidade de descobrir Uyuni depois de desaparecerem os veículos das excursões diárias. A altitude, a baixa humidade e a reduzida poluição luminosa em zonas remotas criam excelentes condições para observar o céu nocturno quando a meteorologia permite. Na época húmida pode acontecer algo ainda mais raro: estrelas reflectidas na água do salar. A sensação visual de estar entre dois céus tornou-se uma das imagens mais procuradas pelos fotógrafos. Mas uma noite no Altiplano exige preparação. As temperaturas podem descer abaixo de zero, as distâncias são grandes e comunicações e assistência são limitadas fora das povoações. Esta é uma das razões pelas quais uma travessia com condutor e logística local continua a ser a opção sensata para explorar áreas remotas. Os Portugueses em Viagem integram precisamente o Salar de Uyuni numa expedição terrestre que continua pelo sudoeste boliviano até ao Deserto do Atacama. O percurso permite perceber que Uyuni não é uma paisagem isolada: faz parte de um enorme sistema altiplânico de vulcões, lagoas, salares e campos geotérmicos que continua para sul. para além do salarNem tudo aquilo que aparece num “tour de Uyuni” pertence ao Salar de Uyuni. Laguna Colorada, Laguna Verde, Deserto de Salvador Dalí, Sol de Mañana e Termas de Polques são frequentemente apresentados em conjunto com o salar porque fazem parte dos populares circuitos de três ou quatro dias. Geograficamente, são outros lugares do sudoeste da Bolívia. As Termas de Polques, por exemplo, situam-se junto à Laguna Salada, dentro do grande circuito da Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa, a mais de 4000 metros, numa região marcada pela actividade vulcânica e geotérmica. Os Portugueses em Viagem já dedicaram um artigo específico às termas e à sua formação. O mesmo cuidado deve ser aplicado às lagoas coloridas e aos géiseres. Vale absolutamente a pena visitá-los, mas chamar a tudo “Salar de Uyuni” elimina precisamente aquilo que torna a região tão interessante: estamos a atravessar sucessivos sistemas geológicos e ecológicos. as atrações que não podes perderSe dispuseres de apenas um dia, concentra a visita em Colchani, montes e polígonos de sal, Ojos del Salar, interior da planície, Isla Incahuasi e pôr do sol, acrescentando o Cemitério de Comboios no início ou no final. Com dois dias, segue para o sector norte e acrescentaria Coquesa e o vulcão Tunupa. Com três ou quatro dias, deixaria então o salar propriamente dito e atravessaria o sudoeste boliviano em direcção às lagoas altiplânicas, Sol de Mañana, Termas de Polques e fronteira chilena. É esta última opção que permite compreender a verdadeira escala do Altiplano e que integra os itinerários dos Portugueses em Viagem entre Bolívia, Salar de Uyuni e Atacama. A diferença entre uma visita rápida e uma travessia prolongada não está apenas no número de fotografias, está na possibilidade de perceber como o sal se relaciona com vulcões, antigos lagos, comunidades, mineração e culturas andinas. O Salar de Uyuni é muito mais do que conduzir sobre sal. É atravessar simultaneamente milhões de anos de história geológica e séculos de história humana. No Blog dos Portugueses em Viagem e nas nossas expedições pela Bolívia procuramos precisamente essa forma de viajar: chegar à paisagem, perceber como nasceu e conhecer as comunidades que aprenderam a viver dentro dela. Porque se Uyuni impressiona à primeira vista, compreendido, torna-se ainda mais extraordinário. MARCA A TUA AVENTURA NA BOLÍVIA |
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