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A Amadora fica a dez minutos de comboio de Lisboa. Tem 175 000 habitantes. E é, provavelmente, a cidade portuguesa mais desconhecida do país em proporção ao seu tamanho. Quando alguém diz que vai passar um dia na Amadora, a reacção habitual é de surpresa. Essa surpresa é exactamente o motivo para ir. A cidade tem 5000 anos de história documentada, um patrimônio arqueológico classificado como Monumento Nacional, vestígios romanos, um aqueduto setecentista e uma casa de pintor que é jóia da arquitectura portuguesa. Nada disto está nos roteiros. Este artigo corrige esse erro. Sabe mais no Blog dos Portugueses em Viagem. Como Chegar à AmadoraChegar à Amadora a partir de Lisboa é simples e económico. Os comboios urbanos da CP têm paragem mesmo no centro da cidade, com ligações regulares e frequentes. A linha de Sintra parte do Rossio e da Oriente — em ambos os casos, a viagem dura entre 15 e 20 minutos. A estação de Amadora fica no coração do município, a poucos minutos a pé dos principais pontos de interesse. Para quem prefere metro, a estação Amadora Este pertence à linha Azul do Metro de Lisboa, situada na Praça São Silvestre. De carro, a cidade fica a cerca de 12 km do centro de Lisboa pela A37 ou pela CRIL. O estacionamento é fácil e gratuito em várias zonas da cidade — uma vantagem rara na Grande Lisboa. UMA Manhã NA AMADORA: 5000 Anos de História num Só LugarNECRÓPOLE DE CARENQUE: O SEGREDO MAIS ANTIGO DA AMADORA Comece o dia com aquilo que ninguém espera encontrar a poucos quilómetros de Lisboa: um sítio arqueológico do Neolítico classificado como Monumento Nacional. A Necrópole de Carenque é constituída por três sepulcros colectivos escavados nos afloramentos calcários do Tojal de Vila Chã, entre Carenque e os Moinhos da Funcheira, descobertos em 1932 pelo arqueólogo Manuel Heleno. Estas grutas artificiais datam do terceiro milénio antes de Cristo. Foram talhadas na rocha por comunidades neolíticas que habitavam o vale da ribeira de Carenque há mais de 5000 anos. A morfologia é característica: um corredor voltado a nascente que comunica com uma câmara funerária através de um pequeno portal de formas arredondadas. A visita é livre e gratuita. O sítio fica numa encosta tranquila, com vista sobre a ribeira e os campos em redor. É um dos locais mais silenciosos e mais carregados de tempo de toda a Área Metropolitana de Lisboa. AQUEDUTO DAS ÁGUAS LIVRES: A GRANDE OBRA QUE ATRAVESSA A CIDADE Da Necrópole, siga até aos arcos do Aqueduto das Águas Livres, que atravessa o território da Amadora de norte a sul. O Aqueduto das Águas Livres foi, na época da sua construção no século XVIII, a maior obra de engenharia hidráulica do mundo. A água era captada em várias nascentes nas zonas de Belas, Carenque e Caneças e transportada ao longo de galerias e aquedutos subsidiários até ao reservatório da Mãe de Água das Amoreiras, que abastecia os chafarizes de Lisboa. Na Damaia, as caleiras correm em cima de 19 arcos, o maior dos quais com 18 metros de altura — o segundo maior em dimensão de todo o aqueduto, superado apenas pelo famoso troço de Alcântara. Ver os arcos da Damaia ao vivo — imponentes, silenciosos, encravados no tecido urbano — é uma experiência que poucos viajantes conhecem e que merece pausa e contemplação. NÚCLEO MUSEOLÓGICO CASAL DA FALAGUEIRA: A HISTÓRIA DA AMADORA EM CINCO SÉCULOS O Casal da Falagueira é um casal quinhentista de grande interesse histórico, classificado como imóvel de interesse municipal, e funciona como sede do Museu da Amadora. As exposições permanentes cobrem toda a história do município: desde os primeiros vestígios do período Paleolítico, passando pela ocupação romana, pela ruralidade medieval marcada por moinhos de vento e quintas apalaçadas, até à história do Aqueduto das Águas Livres e ao nascimento da aviação em Portugal. Esta última exposição é uma surpresa. O G.E.A.R. — Grupo de Esquadrilhas de Aviação República — foi criado em 1919 e esteve sediado na Amadora até 1938. Durante quase 20 anos, a Amadora foi o ponto de partida de viagens aéreas históricas com destino às colónias portuguesas em África e na Ásia. A cidade que ninguém visita foi, durante décadas, a capital portuguesa da aviação. O horário do museu é de terça a sábado das 9h às 13h e das 14h às 17h, e ao domingo das 14h30 às 17h30, com entrada gratuita ao sábado de manhã, para estudantes, menores de 18 anos e maiores de 60 anos. AlmoçAR NA AMADORA: Sabores de uma Cidade GLOBALA Amadora é uma cidade construída por gente de várias regiões de Portugal e de todo o Mundo e isso reflecte-se na gastronomia. A Amadora foi a escolha de muitas pessoas que vieram de outras regiões para viver em Lisboa, pelo que encontrará uma gastronomia variada que espelha tradições de diversos pontos do país. O prato mais típico é o coelho estufado ou à caçador. Entre os restaurantes recomendados estão O Javali, a Taberna da Porcalhota, Batalha dos Sabores, Maria Azeitona e O Quintal. A Taberna da Porcalhota é um daqueles sítios de cozinha caseira que ainda existem em Portugal mas que estão a desaparecer das cidades: convém reservar ou chegar cedo. O coelho à caçador com batatas fritas e salada é a escolha certa para um almoço a preço justo e de sabor genuíno. UMA Tarde NA AMADORA: Arte, Arquitectura e ParqueCasaCASA ROQUE GAMEIRO, UM MONUMENTO DESCONHECIDO Depois do almoço, dirija-se à Casa Roque Gameiro. A Casa Roque Gameiro foi classificada pelo Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico como monumento de interesse público. Foi construída entre 1898 e 1901 para servir de residência ao pintor aguarelista Alfredo Roque Gameiro e respectiva família, sendo um exemplar único da "Casa Portuguesa", inspirada na arquitectura popular de diferentes regiões do país. O edifício está coberto de azulejos de Rafael Bordalo Pinheiro — um detalhe de rara qualidade que, numa cidade com maior presença turística digital, seria mencionado em todos os guias. O horário é de terça a sábado das 10h às 17h30 e ao domingo das 14h30 às 17h30. As exposições temporárias renovam-se ao longo do ano com trabalhos de artistas portugueses que raramente chegam a galerias lisboetas. PARQUE CENTRAL, O CORAÇÃO VERDE DA CIDADE A seguir à Casa Roque Gameiro, reserve uma hora para o Parque Central da Amadora, também chamado Parque José Afonso. O parque tem um anfiteatro, um coreto, um lago de cisnes onde é possível andar de gaivota, e toda a vegetação e arvoredo típicos de um jardim oitocentista bem preservado. A estátua de Zeca Afonso — o autor de Grândola, Vila Morena — fica no centro do parque, numa homenagem que a cidade faz ao cantor que viveu na Amadora. É um dos recantos mais serenos da Grande Lisboa e está sempre a poucas centenas de metros de centenas de residentes que passam apressados sem o apreciar. É o lugar certo para sentar, ler, observar e deixar a tarde passar devagar. VILLA ROMANA DA QUINTA DA BOLACHA Para terminar o dia com uma nota arqueológica, a Villa Romana da Quinta da Bolacha foi descoberta em 1979 durante uma prospecção ao percurso do Aqueduto Romano da Amadora. A sua ocupação remonta à Idade do Cobre. As visitas são guiadas e requerem marcação prévia através do Museu Municipal de Arqueologia (+351 214 369 090). Vale a pena o esforço — é um dos sítios romanos menos visitados e mais intactos de toda a região de Lisboa. Dicas Práticas para Visitar a AmadoraUm dia é suficiente para cobrir os pontos essenciais. O percurso proposto neste artigo — Necrópole de Carenque, Aqueduto das Águas Livres, Núcleo Museológico do Casal da Falagueira, almoço, Casa Roque Gameiro e Parque Central — pode ser feito a pé e de transportes públicos sem necessidade de carro. Se pretender visitar também os arredores e sítios mais afastados como a Necrópole de Carenque, será mais prático ter carro. O melhor momento para visitar é entre terça e sábado, quando todos os museus e núcleos museológicos estão abertos. O domingo tem horários reduzidos. A segunda-feira está geralmente encerrada. A Amadora não tem grandes filas, não tem preços inflacionados e não tem os problemas de sobrelotação que afectam Lisboa, Sintra e Cascais. Tem exactamente o oposto: espaço, silêncio e a agradável sensação de ser o único visitante num lugar que merecia ser muito mais visitado. Porque a Amadora Merece Estar no Seu RoteiroO Município da Amadora foi criado a 11 de Setembro de 1979, sendo o primeiro município criado após o 25 de Abril de 1974. Tem menos de 50 anos como município autónomo, mas tem cinco milénios de ocupação humana documentada. Essa contradição entre juventude administrativa e profundidade histórica define muito do carácter da cidade. Não é uma cidade que se impõe, é uma cidade que se descobre. E as cidades que se descobrem são, quase sempre, as que ficam mais tempo na memória. |
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